quarta-feira, outubro 17, 2012
Every night it's straight and narrow
Filmore Jive.
Pavement, Crooked Rain, Crooked Rain (Matador, 1994).
segunda-feira, outubro 15, 2012
Pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória
Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.
Jorge Roque, Canção da Vida (Averno, 2012).
via José Mário Silva, o Bibliotecário de Babel
Jorge Roque, Canção da Vida (Averno, 2012).
via José Mário Silva, o Bibliotecário de Babel
quinta-feira, outubro 11, 2012
quarta-feira, outubro 10, 2012
segunda-feira, outubro 08, 2012
Adeus Professor
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Lágrima de Preta, António Gedeão.
Nuno Grande, 1932 - 2012.
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Lágrima de Preta, António Gedeão.
Nuno Grande, 1932 - 2012.
sexta-feira, outubro 05, 2012
O país da não-inscrição
Significa isto que a vida portuguesa não comporta verdadeira tragédia. Se a morte nela não se inscreve, se não há morte trágica, nenhum outro acontecimento conseguirá realmente produzir sentido. Porque a morte, como acontecimento irremediável e necessariamente trágico (ontologicamente trágico, como des-inscrição radical de uma existência na vida), deve inscrever-se na vida para que esta se torne possível e faça sentido para os vivos.
José Gil; Portugal Hoje: o Medo de Existir (Relógio D'Água, 2004).
José Gil; Portugal Hoje: o Medo de Existir (Relógio D'Água, 2004).
sábado, setembro 29, 2012
Long enough and just so long
as freedom is a breakfastfood
or truth can live with right and wrong
or molehills are from mountains made
—long enough and just so long
will being pay the rent of seem
and genius please the talentgang
and water most encourage flame
as hatracks into peachtrees grow
or hopes dance best on bald men’s hair
and every finger is a toe
and any courage is a fear
—long enough and just so long
will the impure think all things pure
and hornets wail by children stung
or as the seeing are the blind
and robins never welcome spring
nor flatfolk prove their world is round
nor dingsters die at break of dong
and common’s rare and millstones float
—long enough and just so long
tomorrow will not be too late
worms are the words but joy’s the voice
down shall go which and up come who
breasts will be breasts thighs will be thighs
deeds cannot dream what dreams can do
—time is a tree(this life one leaf)
but love is the sky and i am for you
just so long and long enough
E.E. Cummings
or truth can live with right and wrong
or molehills are from mountains made
—long enough and just so long
will being pay the rent of seem
and genius please the talentgang
and water most encourage flame
as hatracks into peachtrees grow
or hopes dance best on bald men’s hair
and every finger is a toe
and any courage is a fear
—long enough and just so long
will the impure think all things pure
and hornets wail by children stung
or as the seeing are the blind
and robins never welcome spring
nor flatfolk prove their world is round
nor dingsters die at break of dong
and common’s rare and millstones float
—long enough and just so long
tomorrow will not be too late
worms are the words but joy’s the voice
down shall go which and up come who
breasts will be breasts thighs will be thighs
deeds cannot dream what dreams can do
—time is a tree(this life one leaf)
but love is the sky and i am for you
just so long and long enough
E.E. Cummings
segunda-feira, setembro 10, 2012
Invisíveis sombras
Invisíveis sombras entre nós
a casa das coisas.
Invisíveis como a nossa
visível obstinação.
Um pouco de luz nos faz pender
para um dos lados.
Uma luz que não sabemos.
Uma luz que invisíveis sombras
lança
entre nós a casa as coisas
e nos faz pender para um lado
um dos lados
o lado que não sabemos
dessa luz que nos conhece.
Pedro Mexia, Senhor Fantasma (Asa, 2007).
a casa das coisas.
Invisíveis como a nossa
visível obstinação.
Um pouco de luz nos faz pender
para um dos lados.
Uma luz que não sabemos.
Uma luz que invisíveis sombras
lança
entre nós a casa as coisas
e nos faz pender para um lado
um dos lados
o lado que não sabemos
dessa luz que nos conhece.
Pedro Mexia, Senhor Fantasma (Asa, 2007).
quinta-feira, setembro 06, 2012
quinta-feira, agosto 30, 2012
Há espelhos
– em que de uma forma confiada
nos vamos olhando
todos e cada um dos nossos dias –
que de repente
se partem
e deixam ver
nos seus pedaços gelados
essas facas de que eram feitos.
Lorenzo Oliván, Visiones y revisiones (tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
via A Terceira Noite
nos vamos olhando
todos e cada um dos nossos dias –
que de repente
se partem
e deixam ver
nos seus pedaços gelados
essas facas de que eram feitos.
Lorenzo Oliván, Visiones y revisiones (tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
via A Terceira Noite
quarta-feira, agosto 29, 2012
Anyway,
“It was the first time I ever had to go to bed in a hospital and contemplate my own urinary tract hanging on the wall — a sort of amber Rothko,” he says. It startled him into realising how much he wanted to live.
“I had suicidal thoughts when I was young. I fancied myself as a melancholic, quite a lot of people do, it’s a fashionable thing. Anyway, all these ideas were coming to me when I was going to sleep, ideas of self-destruction. They all promptly vanished the moment I was under real threat. There was a sudden urge to live. I wanted to do more, to write more.”
“I had suicidal thoughts when I was young. I fancied myself as a melancholic, quite a lot of people do, it’s a fashionable thing. Anyway, all these ideas were coming to me when I was going to sleep, ideas of self-destruction. They all promptly vanished the moment I was under real threat. There was a sudden urge to live. I wanted to do more, to write more.”
quarta-feira, agosto 22, 2012
(there are millions of suns left,)
1
I celebrate myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.
I loafe and invite my soul,
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass.
My tongue, every atom of my blood, form'd from this soil, this air,
Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same,
I, now thirty-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.
Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy.
2
Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with perfumes,
I breathe the fragrance myself and know it and like it,
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.
The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the distillation, it is odorless,
It is for my mouth forever, I am in love with it,
I will go to the bank by the wood and become undisguised and naked,
I am mad for it to be in contact with me.
The smoke of my own breath,
Echoes, ripples, buzz'd whispers, love-root, silk-thread, crotch and vine,
My respiration and inspiration, the beating of my heart, the passing of blood and air through my lungs,
The sniff of green leaves and dry leaves, and of the shore and dark-color'd sea-rocks, and of hay in the barn,
The sound of the belch'd words of my voice loos'd to the eddies of the wind,
A few light kisses, a few embraces, a reaching around of arms,
The play of shine and shade on the trees as the supple boughs wag,
The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields and hill-sides,
The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising from bed and meeting the sun.
Have you reckon'd a thousand acres much? have you reckon'd the earth much?
Have you practis'd so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?
Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
You shall no longer take things at second or third hand, nor look through the eyes of the dead, nor feed on the spectres in books,
You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
You shall listen to all sides and filter them from your self.
Song of Myself. Walt Whitman, Leaves of Grass (1855).
I celebrate myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.
I loafe and invite my soul,
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass.
My tongue, every atom of my blood, form'd from this soil, this air,
Born here of parents born here from parents the same, and their parents the same,
I, now thirty-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.
Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy.
2
Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with perfumes,
I breathe the fragrance myself and know it and like it,
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.
The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the distillation, it is odorless,
It is for my mouth forever, I am in love with it,
I will go to the bank by the wood and become undisguised and naked,
I am mad for it to be in contact with me.
The smoke of my own breath,
Echoes, ripples, buzz'd whispers, love-root, silk-thread, crotch and vine,
My respiration and inspiration, the beating of my heart, the passing of blood and air through my lungs,
The sniff of green leaves and dry leaves, and of the shore and dark-color'd sea-rocks, and of hay in the barn,
The sound of the belch'd words of my voice loos'd to the eddies of the wind,
A few light kisses, a few embraces, a reaching around of arms,
The play of shine and shade on the trees as the supple boughs wag,
The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields and hill-sides,
The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising from bed and meeting the sun.
Have you reckon'd a thousand acres much? have you reckon'd the earth much?
Have you practis'd so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?
Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
You shall no longer take things at second or third hand, nor look through the eyes of the dead, nor feed on the spectres in books,
You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
You shall listen to all sides and filter them from your self.
Song of Myself. Walt Whitman, Leaves of Grass (1855).
segunda-feira, agosto 20, 2012
In a milk white gown
Sailing on the wind
In a milk white gown
Dropping circle stones on a sun dial
Playing hide and seek
With the ghosts of dawn
Waiting for a smile from a sun child.
Buffalo '66, Vincent Gallo (1998).
sexta-feira, agosto 17, 2012
Uma cena furiosa como nunca vi
"Até aquele dia em que morreu Maria Julieta, "a pessoa que ele mais adorava no mundo", e "sem se matar ele morreu 12 dias mais tarde". Armando foi ao velório da filha de Drummond, e viu Drummond junto a ela. "Não era um velhinho com dor, sofrendo. Era uma fera diante daquela injustiça, uma cena furiosa como nunca vi. Não consegui falar porra nenhuma, segurei a mão dele com as duas mãos, ele falou: ‘Obrigada.’ Não havia lágrimas. Havia um brilho de aço no olhar."
Armando Freitas Filho sobre Carlos Drummond de Andrade, no Público de hoje.
Armando Freitas Filho sobre Carlos Drummond de Andrade, no Público de hoje.
segunda-feira, agosto 13, 2012
A barreira da lógica
"Nunca mais me esqueço do que uma sobrevivente me disse: 'Esperávamos o pior, mas não o impossível'. É aquilo a que os historiadores chamam 'a barreira da lógica' – uma barreira na nossa mente sobre aquilo que pode acontecer. Quantos mais se investiga sobre o Holocausto, menos se percebe."
Esther Mucznik
Esther Mucznik
sexta-feira, agosto 10, 2012
Carril
Duas da madrugada: noite luarenta. O comboio detém-se
no meio da campina. Bem ao longe, pontos luminosos, urbanos,
tremulam friamente a perderem-se de vista.
O mesmo sucede quando sonhamos tão profundamente
que nunca havemos de nos recordar onde estivemos
ao regressar ao nosso quarto.
Ou como alguém com uma doença tão adiantada
que todos os anos vividos passam a ser pontos trémulos,
um enxame frio e sem importância no horizonte.
O comboio continua sem se mexer um milímetro.
São as duas da madrugada: luar intenso, poucas estrelas.
Tomas Tranströmer
no meio da campina. Bem ao longe, pontos luminosos, urbanos,
tremulam friamente a perderem-se de vista.
O mesmo sucede quando sonhamos tão profundamente
que nunca havemos de nos recordar onde estivemos
ao regressar ao nosso quarto.
Ou como alguém com uma doença tão adiantada
que todos os anos vividos passam a ser pontos trémulos,
um enxame frio e sem importância no horizonte.
O comboio continua sem se mexer um milímetro.
São as duas da madrugada: luar intenso, poucas estrelas.
Tomas Tranströmer
sábado, julho 28, 2012
Someone else willing to take part in a fiction he cannot possibly know about.
Truman Capote, 1955. Richard Avedon.
quarta-feira, julho 25, 2012
A kind of laid-back management style I’m not crazy about
I have administrative bones to pick with God, Boo. I’ll say God seems to have a kind of laid-back management style I’m not crazy about. I’m pretty much anti-death. God looks by all accounts to be pro-death. I’m not seeing how we can get together on this issue, he and I, Boo.
David Foster Wallace, Infinite Jest (Little, Brown, 1996).
David Foster Wallace, Infinite Jest (Little, Brown, 1996).
segunda-feira, julho 23, 2012
Numa combustão modesta
brincávamos a cair nos braços um do outro
brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando,
e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor.
queríamos o amor um pelo outro sem hesitações,
como se a desgraça nos servisse bem e,
a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento
e não sabíamos que a vida podia parar um dia.
eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz,
o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo.
tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato,
quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio,
tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso.
estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho.
tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo,
um modo mais perene, lento, covarde.
Eu amava-te e julgava bem que amar era afeiçoar o corpo ao perigo.
caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando.
eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando
e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração,
iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me,
valter tem cuidado, não brinques assim,
vais partir uma perna,
vais partir a cabeça,
vais partir o coração.
e estava certa, foi tudo verdade
Valter Hugo Mãe, Contabilidade.
brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando,
e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor.
queríamos o amor um pelo outro sem hesitações,
como se a desgraça nos servisse bem e,
a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento
e não sabíamos que a vida podia parar um dia.
eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz,
o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo.
tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato,
quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio,
tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso.
estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho.
tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo,
um modo mais perene, lento, covarde.
Eu amava-te e julgava bem que amar era afeiçoar o corpo ao perigo.
caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando.
eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando
e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração,
iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me,
valter tem cuidado, não brinques assim,
vais partir uma perna,
vais partir a cabeça,
vais partir o coração.
e estava certa, foi tudo verdade
Valter Hugo Mãe, Contabilidade.
sexta-feira, julho 13, 2012
For a living
Secrets are my currency: I deal in them for a living. The secrets of desire, of what people really want, and of what they fear the most. The secrets of why love is difficult, sex complicated, living painful and death so close and yet placed far away. Why are pleasure and punishment closely related? How do our bodies speak? Why do we make ourselves ill? Why do you want to fail? Why is pleasure hard to bear?
Hanif Kureishi
Hanif Kureishi
segunda-feira, julho 02, 2012
e depois, de súbito menina
Pode apagar a luz: já não preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de ter receio do escuro, uma claridade ambarina reveste os objectos da serenidade cúmplice das manhãs de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com o seu sol infantil, os materiais necessários para construir algo de inefavelmente agradável que eu não lograria jamais elucidar. A Isabel que substituía aos meus sonhos paralisados o seu pragmatismo docemente implacável, consertavas as fissuras da minha existência com o rápido arame de duas ou três decisões de que a simplicidade me assombrava, e depois, de súbito menina, se deitava sobre mim, me segurava a cara com as mãos, e me pedia Deixa-me beijar-te, numa vozinha minúscula cuja súplica me transtornava. Acho que a perdi como perco tudo, que a sacudi de mim com o meu humor variável, as minhas cóleras inesperadas, as minhas exigências absurdas, esta angustiada sede de ternura que repele o afecto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de uma hostilidade sem razão. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeada de ralos e figueiras, do céu morno da noite tingido pelo halo longínquo do mar, da cal das paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada paixão das minhas carícias que pareciam deter-se, irresolutas, a centímetros do rosto dela, e se dissolviam por fim num afago indefinido.
António Lobo Antunes, "Os Cus de Judas" (1979).
António Lobo Antunes, "Os Cus de Judas" (1979).
domingo, julho 01, 2012
A kind of lostness
In response to a question about what being an American was like for him at the end of the 20th century, he told the online magazine Salon in 1996 that there was something sad about it, but not as a reaction to the news or current events. “It’s more like a stomach-level sadness,” he said. “I see it in myself and my friends in different ways. It manifests itself as a kind of lostness.”
No obituário de David Foster Wallace do The New York Times, por Bruce Weber (Setembro de 2008).
No obituário de David Foster Wallace do The New York Times, por Bruce Weber (Setembro de 2008).
sexta-feira, junho 29, 2012
It doesn't really matter
When asked whether she thinks it's unusual for someone to move at that age, she waves her hand dismissively. It doesn't really matter, she says, because she never had a home to which she could return.
Susanne Beyer, sobre Gabriele Köpp.
via Malomil
Susanne Beyer, sobre Gabriele Köpp.
via Malomil
quarta-feira, junho 20, 2012
My dear X
"You seem to have grasped the point that there is something idiotic about those who believe that consensus (to give the hydra-headed beast just one of its names) is the highest good. Why do I use the offensive word "idiotic"? For two reasons that seem good to me; the first being my conviction that human beings do not, in fact, desire to live in some Disneyland of the mind, where there is an end to striving and a general feeling of contentment and bliss.
My dear X,
Beware the irrational, however seductive. Shun the "transcendant" and all who invite you to subordinate or annihilate yourself. Distrust compassion; prefer dignity for yourself and others. Don't be afraid to be thought arrogant or selfish. Picture all experts as if they were mammals. Never be a spectator of unfairness or stupidity. Seek out argument and disputation for their own sake; the grave will supply plenty of time for silence. Suspect your own motives, and all excuses. Do not live for others any more than you would expect others to live for you."
My second reason is less intuitive. Even if we did really harbour this desire, it would fortunately be unattainable. As a species, we may by all means think ruefully about the waste and horror produced by war and other forms of rivalry and jealousy. However, this can't alter the fact that in life we make progress by conflict and in mental life by argument and disputation. (...)
My dear X,
Beware the irrational, however seductive. Shun the "transcendant" and all who invite you to subordinate or annihilate yourself. Distrust compassion; prefer dignity for yourself and others. Don't be afraid to be thought arrogant or selfish. Picture all experts as if they were mammals. Never be a spectator of unfairness or stupidity. Seek out argument and disputation for their own sake; the grave will supply plenty of time for silence. Suspect your own motives, and all excuses. Do not live for others any more than you would expect others to live for you."
Letters to a Young Contrarian, Christopher Hitchens (Basic Books, 2001).
quarta-feira, junho 13, 2012
Reverter a partir da tona
toma, mário,
, uns falham, outros só tentam acertar
não há meio termo nisto.
é como o lindo hot humano que, feliz
incompreendido, reverte a partir da tona
para te bronzear.
porque tudo o que brilha se te vende.
eu nunca me vi gritar, mas que me parece
ser essa a única forma de te doer.
hás-de não conseguir, hás-de chegar
com a cabeça aos joelhos
e daí para a frente é só chão.
estou pronto para te desistir.
brindo e que corrosives.
um beijo, teu camané
Nuno Moura, "Poetas sem qualidades" (Averno).
, uns falham, outros só tentam acertar
não há meio termo nisto.
é como o lindo hot humano que, feliz
incompreendido, reverte a partir da tona
para te bronzear.
porque tudo o que brilha se te vende.
eu nunca me vi gritar, mas que me parece
ser essa a única forma de te doer.
hás-de não conseguir, hás-de chegar
com a cabeça aos joelhos
e daí para a frente é só chão.
estou pronto para te desistir.
brindo e que corrosives.
um beijo, teu camané
Nuno Moura, "Poetas sem qualidades" (Averno).
Essa mulher não existe
Inge Morath. Arthur Miller and Marilyn Monroe (Reno, 1960).
Há alturas em que penso que a fotografia foi inventada por haverem poemas para ilustrar. Há outras em que tudo isso me parece perfeitamente inútil. Mas se toda a poesia é inútil.
terça-feira, junho 12, 2012
Dias úteis
Uma mulher de 92 anos presa em 1980, que me dá o nome de Jorge, diz que tenho os olhos bonitos e a barba a aparecer, pergunta-me: "E se eu gostasse muito de morrer?". Depois beija-me a mão e pede desculpa.
domingo, junho 10, 2012
Nesta cidade
Vejo os taxistas de manhã a limpar os seus carros: uma zelo contrariado, bruto, estofos demasiado brilhantes para a elegância e para sempre um infinito banco de trás onde me permito não usar cinto. Os táxis são os únicos carros onde não uso cinto: abro o vidro e deixo-me deslizar naqueles bancos pretos (imagino sempre os táxis com bancos pretos, nunca reparo de que cor são na realidade). Quando o carro curva, deixo-me levar um pouco e imagino o que aconteceria se me deixasse rebolar e para lá da porta do lado esquerdo houvesse um outro mundo onde os táxis não precisassem de cintos. No outro dia um taxista queixa-se de que já tinha sido condutor de pesados, já não tinha costas para isso, já não havia mãos para isso, algo sobre perda e eu emocionei-me com a noção de escala de um homem que parecia entender a minha necessidade de seguir sem cinto. Olhou, viu a janela aberta e calou-se. Julgo que seguimos os dois emocionados, que ele percebeu que embora não o estivesse a ouvir o tinha percebido o suficiente para dele me recordar e ficámos por ai.
Mas volta, volta sempre.
O que nós contemos é demasiado para acabar. Acredito que a imortalidade possa ser uma grande maçada, ainda por cima sabendo que nós humanos não somos flores que se cheirem. Mas admitamo-lo: viver sabe a pouco, mesmo quando se morre de excesso de vida. Não há refúgio possivel nestas alturas: leio Unamuno, leio Séneca, leio a minha Bíblia e não há santuário nem consolo. Depois passa. Mas volta, volta sempre. Estou zangado. Apetece-me grafittar esta cidade que está luminosa com a frase do Sénancour: «Se é do pó que viemos e é para o pó que vamos façamos que isso seja uma injustiça».
Nuno Miguel Guedes, "A vida tem morte a mais".
Nuno Miguel Guedes, "A vida tem morte a mais".
Persist
At the heart of desire is a misregognition of fullness where there is really nothing but a screen for our own narcissistic projections. It is that lack at the heart of desire that ensures we continue to desire. To come too close to our object of desire threatens to uncover the lack that is, in fact, necessary for our desire to persist, so that, ultimately, desire is most interested not in fully attaining the object of desire but in keeping our distance, thus allowing desire to persist. Because desire is articulated through fantasy, it is driven to some extent by its own impossibility.
Dino Felluga.
via
Dino Felluga.
via
quarta-feira, maio 23, 2012
As mortes insignificantes
Na saída do aeroporto há uma instalação. Como que uma sala fúnebre fresca, paredes e chão negros mate de iluminação quase invisível azul, rasgada por um traço incandescente de claridade. Marca uma fronteira perpendicular ao caminho e ciclos de água pulverizada caem sobre ela. Há ali uma impressão de limite e limpeza. Parece-me apropriado: sempre achei que o maior privilégio em viajar e ser estrangeiro por alguns dias, se liga a essa noção de uma vida que se suspende. Que morre só um bocadinho. Que deixa uma cama e uma secretária vazia. O que transforma estas mortes em insignificâncias agradáveis é o bilhete de regresso, a certeza de uma casa, a noção de temporário, de interrupção controlada. A identidade bem guardada numa carteira que de pouco ou nada vai servir nestes dias: carta de condução, passe de metro. Tudo inútil, mas ainda assim, garantia fundamental de que há uma vida a que vamos voltar. De qualquer forma, há justiça e sentido em construir um purgatório na fronteira entre o terminal e a gare. Eu aproveitei para trocar o rolo à maquina que ia no casaco e comer duas bolachas. O meu velório.
terça-feira, maio 08, 2012
As coisas do corpo
Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.
Inês Fonseca Santos, "As Coisas" (Abysmo, 2012).
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.
Inês Fonseca Santos, "As Coisas" (Abysmo, 2012).
quinta-feira, maio 03, 2012
A menina do mar
A ideia que fazemos deste caso é provavelmente a ideia que temos do mundo. Depende das nossas miragens e desencantos, de medos e fascínios. Ainda que tudo isso coexista muitas vezes numa mesma empresa: onde cresce o perigo cresce também aquilo que salva, escreveu um poeta alemão que morreu louco.
Pedro Mexia, O Mundo dos Vivos (Tinta da China, 2012).
Pedro Mexia, O Mundo dos Vivos (Tinta da China, 2012).
domingo, abril 29, 2012
Columbano
A mulher atravessa duas faixas, aperta a mala entre o ombro e o braço, encosta o livro ao peito (mão esquerda) e sobe para o separador central. Baixa os óculos escuros e continua pela calçada branca, pouco usada, estreita. Contorna os postes das luzes, passos lentos. Pára. Há poucos carros do outro lado, mas não atravessa. O semáforo abre. É o meio da manhã, a hora leve. Quando a estrada se esvazia, desce para o alcatrão. Está numa pequena avenida, consegue ver que há quarteirões de estrada vazia. Baixa o livro do peito, pensa porque o trouxe, habituou-se a usar os papéis como desculpas ou acessórios, cigarros fumados nas traseiras de uma festa em que nada está a acontecer. Os cigarros e os livros como pretexto para conversas. Nunca devia ter começado a fumar, mas gosta de ler. O braço pendurado junto do corpo, a terminar no livro. Brinca com a postura, deixa o braço esticar-se para trás. Imagina que é vista, talvez sobre o ombro (esquerdo). Continua. Aproxima-se da linha tracejada que separa as duas faixas, repara que tem volume, parece mais depositada do que pintada. Deve ser fresca e segue-a como se houvesse aí alguma ordem. Sente o sabor a pasta de dentes. Sem entender muito bem porquê, pára. Fica espantada com as copas das árvores, de um verde infinito. Tonta, pensa. Continua para a direita, alcança o outro passeio. Entra na pastelaria. Sobe os óculos escuros com dois dedos da mão esquerda, os mais pequenos. Fica em silêncio enquanto uma senhora treme e recolhe o troco, o balcão de vidro demasiado alto para tanta idade, ela e o empregado como que a respeitar uma solenidade improvisada. Pede um café. Cheio. Pousa o livro. O empregado mete o pires e colher em cima do balcão de vidro, que para ela tem a altura certa. Brinca com o pacote de açúcar. Empurra todos os grão para uma ponta. Rasga. Verte e mexe. Bebe e paga. Obrigado e bom dia. Agarra o livro. Não há troco para recolher. Sai. Brinca com a ideia de fumar um cigarro no meio do alcatrão. Provavelmente esqueceu-se do isqueiro. Esquece os óculos. Fecha os olhos.
terça-feira, abril 17, 2012
The perpetual animal obits
“For a long time he stood gazing at the owl, who dozed on its perch. A thousand thoughts came into his mind, thoughts about the war, about the days when owls had fallen from the sky; he remembered how in his childhood it had been discovered that species upon species had become extinct and how the ‘papes had reported it each day - foxes one morning, badgers the next, until people had stopped reading the perpetual animal obits.”
Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?
Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?
domingo, abril 01, 2012
É sempre bom ter a certeza de alguma coisa mesmo que de uma coisa tão inútil como esta
"o acto mais cruel acaba por encontrar sempre uma justificação, o mais insignificante também, uma mania de compreendermos tudo, de evitarmos, assustados, o mistério que a morte encerra, o último mistério, os homens que encontro nas áreas de serviços há muito que não têm mistérios, adivinho-lhes as respostas às perguntas que lhes faço, há quantos anos anda na estrada, gostam de perguntas que lhes permitam fazer contas, na primeira viagem tinha vinte e três anos, ora já tenho cinquenta e dois, portanto, ou então vão pelo ano, comecei a trabalhar em mil novecentos, outros respondem sem hesitar, há dezassete anos e dois meses, é sempre bom ter a certeza de alguma coisa mesmo que de uma coisa tão inútil como esta, outra pergunta de que estes homens costumam gostar, quantos quilómetros, por exemplo, o que encontrei na semana passada, milhares e milhares, um escudo por cada quilómetro e estava milionário, um cêntimo, que já não existem escudos, cêntimos ou escudos tanto faz, tanto custam a ganhar uns como os outros, e o anterior, não sei se o da outra semana, se a estrada fosse sempre a subir já tinha chegado ao céu, tinha a ideia que era sensível, contou-me que chorava quando passava pelas florestas ardidas, na verdade as almas sensíveis maçam-me bastante, claro que não deixo que percebam, felizmente que a maioria não é assim, de qualquer forma são todos semelhantes na forma de se aproximarem, primeiro o hálito, depois as mãos, como que por descuido, escolhem quase sempre as coxas, quando me tocam assusto-me sempre, já nem eu sei se a fingir se de verdade"
Dulce Maria Cardoso, Os Meus Sentimentos (Asa, 2005).
domingo, março 25, 2012
Tem piada, que tenho imenso jeito para me sabotar
"If there's a discrepancy between certainty and truth, the certainty of the discrepancy sabotages its truth".
Eric Duyckaerts.
quinta-feira, março 22, 2012
The Search for Cherry Red
Versão dos The Kills em Keep on Your Mean Side (Domino, 2003).
Little drunk from the Warners' Christmas ball
Cut by love and cut by switchblade
He's been gone nearly half a decade
I still remember my brother
I see his face on the billboards
and the polaroids that stayed on my pillow 'til they faded
And it's painted cherry red, cherry red now
All your dreams are cherry red inside your head.
Cut by love and cut by switchblade
He's been gone nearly half a decade
I still remember my brother
I see his face on the billboards
and the polaroids that stayed on my pillow 'til they faded
And it's painted cherry red, cherry red now
All your dreams are cherry red inside your head.
A magnitude of beauty that allows me no peace.
The Poles rode out from Warsaw against the German
Tanks on horses. Rode knowing, in sunlight, with sabers,
A magnitude of beauty that allows me no peace.
And yet this poem would lessen that day. Question
The bravery. Say it's not courage. Call it a passion.
Would say courage isn't that. Not at its best.
It was impossib1e, and with form. They rode in sunlight,
Were mangled. But I say courage is not the abnormal.
Not the marvelous act. Not Macbeth with fine speeches.
The worthless can manage in public, or for the moment.
It is too near the whore's heart: the bounty of impulse,
And the failure to sustain even small kindness.
Not the marvelous act, but the evident conclusion of being.
Not strangeness, but a leap forward of the same quality.
Accomplishment. The even loyalty. But fresh.
Not the Prodigal Son, nor Faustus. But Penelope.
The thing steady and clear. Then the crescendo.
The real form. The culmination. And the exceeding.
Not the surprise. The amazed understanding. The marriage,
Not the month's rapture. Not the exception. The beauty
That is of many days. Steady and clear.
It is the normal excellence, of long accomplishment.
Tanks on horses. Rode knowing, in sunlight, with sabers,
A magnitude of beauty that allows me no peace.
And yet this poem would lessen that day. Question
The bravery. Say it's not courage. Call it a passion.
Would say courage isn't that. Not at its best.
It was impossib1e, and with form. They rode in sunlight,
Were mangled. But I say courage is not the abnormal.
Not the marvelous act. Not Macbeth with fine speeches.
The worthless can manage in public, or for the moment.
It is too near the whore's heart: the bounty of impulse,
And the failure to sustain even small kindness.
Not the marvelous act, but the evident conclusion of being.
Not strangeness, but a leap forward of the same quality.
Accomplishment. The even loyalty. But fresh.
Not the Prodigal Son, nor Faustus. But Penelope.
The thing steady and clear. Then the crescendo.
The real form. The culmination. And the exceeding.
Not the surprise. The amazed understanding. The marriage,
Not the month's rapture. Not the exception. The beauty
That is of many days. Steady and clear.
It is the normal excellence, of long accomplishment.
Jack Gilbert, The Abnormal Is Not Courage
terça-feira, março 13, 2012
E é desse Nietzsche que eu gosto
Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade. Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel de Turim. Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega-se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar.
A cena passava-se em 1889 e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outras palavras, foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou. Mas, na minha opinião, é justamente isso que reveste o seu gesto de um profundo significado. Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divórcio com a humanidade) começa no instante em que se põe a chorar abraçado ao cavalo.
E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e que a afaga. Ponho-os ao lado um do outro: tanto um como outro se afastam da estrada em que a humanidade, "dona e senhora da natureza", prossegue a sua marcha sempre em frente.
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (1983; Tradução de Joana Varela editada pelo D. Quixote em 2011, porque lamentavelmente não sei ler o original em francês. Talvez um dia.).
Se isto é uma casa
Se isto é uma casa, mataram-nos o cão. O jardim está vazio e as beatas de uma noite ainda lá estão de manhã, quando vou para o carro. Se isto é uma casa, desligaram-nos o frigorífico. A sala está fria e as almofadas olham-nos com um ar inquisidor, mas se nos sentássemos não nos abraçavam. Se isto é uma casa, a torneira pinga. O corredor não tem os nossos retratos e tudo parece mais estreito, abrimos os braços e as costas das mãos tocam o estuque (ficamos ali como que à espera que a parede se encolha). Se isto é uma casa, não encontro os meus livros nas prateleiras. As gavetas estão vazias e aquele papel que me lembrava sabonetes enrolou-se no fundo, lembra-me agora as coisas que inventava como brinquedos na minha infância, na sala da minha avó que tinha alcatifa castanha e uma porta para a rua que nunca usávamos. Havia uma fotografia do casamento da minha madrinha em que as pessoas estavam a sair por lá, via-se que era uma ocasião importante. Nas casas da minha infância entrava-se e saía-se pela porta da cozinha. Em casa dos meus pais ainda se nota um pouco isso, a porta da cozinha é a porta da casa. Em casa da minha avó que tinha na sala alcatifa castanha e uma porta para a rua que nunca usávamos, a porta da cozinha dava para uma espécie de largo. Em frente, o Toyota Corola branco do meu avô e a casa de uma vizinha que eu achava engraçada, porque para se entrar (pela cozinha) descia-se uns degraus que agora me parecem pouco mais do que uma decoração. Para a esquerda dos degraus da vizinha havia a casa de banho, um barraco a que chamaríamos hoje arrumos, o tanque, o galinheiro e depois um muro, que saltando estamos em casa da Tia Gracinda (a Tia Gracinda é mãe do rapaz de cabelo comprido que se via na foto a casar-se com a minha madrinha e a usar a porta da sala da minha avó. Via-se que era um casamento entre gente da terra). À porta de casa da minha outra avó havia um pátio (não lhe chamo largo, como o outro, porque este era só nosso) e um pouco de terreno, com um diospireiro e algumas vinhas (pensei sempre no diospireiro como propriedade da minha avó e na vinha como propriedade do meu avô. No norte as coisas ainda são um pouco assim). Nas casas da minha infância não havia animais de estimação. A avó do diospireiro tinha uns gatos e criava coelhos. Os gatos eram seus no sentido em que somos donos do ar que ocupa as nossas varandas nos apartamentos das cidades e os coelhos, depois de brincarmos com eles às ninhadas inteiras nos carrinhos de mão, acabávamos por comer. Não havia cães que nos pudessem matar. Os jardins não eram particularmente bonitos e ninguém fumava. Os frigoríficos nunca se desligaram e, além das funções que cumprem nas outras casas, o de casa da minha avó que tinha na sala alcatifa castanha e uma porta para a rua que nunca usávamos, servia para o meu tio Quim meter em cima a carteira e as chaves do carro quando vinha lá almoçar. Convém lembrar que o frigorifico estava à porta da cozinha e a cozinha era a porta da casa. Mas como dizia, as torneiras por vezes pingavam, particularmente as dos pátios e outros sítios exteriores, onde de alguma forma isso parecia importar menos as pessoas. Não havia retratos nos corredores até porque havia muito pouca coisa nas paredes (as paredes da minha infância eram como que telas para quais se olhava de baixo. Uma pessoa aprende a ter respeito por uma tela em branco de muitas maneiras, esta é apenas uma delas). Quando abria os braços, as minhas mãos não tocavam o estuque e, se era por ser mais pequeno, na altura não o sabia (não esperava nada das paredes nessa altura, além de respeitar a sua semelhança com telas). Não havia muitos livros nas prateleiras, mas à medida que os fui trazendo fizeram-me sempre perceber que, se havia muita coisa na minha vida que era um privilégio, esse era um direito muito querido. Nunca se discutiu o preço de um livro. O preço de um livro era o preço de um livro e era o fim do assunto. Quando os livros já não cabiam nessas prateleiras de onde vim, disseram-me sem esconder o orgulho que fizesse o favor de trazer mais e mais, porque se fosse preciso viveríamos e dormiríamos em cima deles, mesmo que só para mim não fossem em grande parte um mistério. Nunca precisamos de viver ou dormir em cima deles. Houve sempre mais prateleiras e por isso habituei-me a essa noção de que algumas coisas são essenciais e indiscutíveis, de que os livros podem ser uma forma de amor. Não falo de amor pelos livros, embora esse também exista, falo dos livros como demonstração de amor. Falo de uma entrega que desejava a superação, não a todo o custo, mas com toda a naturalidade. Se há algo que posso agradecer às casas em que cresci é essa noção de que há coisas essenciais e indiscutíveis, sobre as quais, se for preciso, vamos viver ou dormir.
segunda-feira, março 12, 2012
quarta-feira, março 07, 2012
Nunca fomos tão claros como no luto
Nos funerais encontramos a família.
Nunca fomos tão claros
como no luto
e nas memórias anedóticas
que amenizam o morto.
Que sangue é o teu
para que o meu se assemelhe?
Alguns velhos trazem flores
que já ofereceram nos casamentos
e entre eles decidem
que somos uma família,
conhecem os primos que não
conheço, lamentam a sorte
daqueles cuja sorte é conhecida,
são ainda mais graves
do que nós, e usam
diminutivos carinhosos.
O meu nome far-se-á pó
com o meu corpo, pensa
uma mulher que já é viúva,
há irmãos completamente mudos.
e as crianças jogam à cabra-cega.
Seguimos em cortejo
compondo as gravatas,
o vento não percebe que morreu gente.
Dez pessoas acompanham o padre,
os outros já não se lembram
das orações,
dez pessoas pensam
no que têm pela frente,
os outros acompanham o caixão.
O coveiro mais novo
dentro de pouco tempo
enterrará o mais velho.
Funerais.
Pedro Mexia, Menos por Menos (2011).
Self-portrait as Amnesiac
I never saw the fauna of this world,
only a stare through headlights, a hurried
lurching from verge to verge
on a woodland road;
and, long ago, those places in the roof
where dust had gathered,
shoeboxes lined with eggs and empty
pomegranates drying in a bowl,
mousebones and wicker, chess pieces, muddled coats,
the slender, puppet versions of myself
who played here for a while
then moved away.
At times, when I have nothing else to do,
I think of going up into the highest
roof-beam, like the bridegroom in a hymn,
and bringing something down, an ancient
bird mask, or a broken violin,
or something in a cage that’s still alive
until I fetch it out into the light
and watch it go to powder, teeth and eyestitch
crumbling, and the sound it used to make
extinguished, like that shrieking in the woods
that, once, when I was small, and still awake,
uncharmed me from my bed, before it vanished.
John Burnside
only a stare through headlights, a hurried
lurching from verge to verge
on a woodland road;
and, long ago, those places in the roof
where dust had gathered,
shoeboxes lined with eggs and empty
pomegranates drying in a bowl,
mousebones and wicker, chess pieces, muddled coats,
the slender, puppet versions of myself
who played here for a while
then moved away.
At times, when I have nothing else to do,
I think of going up into the highest
roof-beam, like the bridegroom in a hymn,
and bringing something down, an ancient
bird mask, or a broken violin,
or something in a cage that’s still alive
until I fetch it out into the light
and watch it go to powder, teeth and eyestitch
crumbling, and the sound it used to make
extinguished, like that shrieking in the woods
that, once, when I was small, and still awake,
uncharmed me from my bed, before it vanished.
John Burnside
segunda-feira, março 05, 2012
I look

and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it's in the Frick
which thank heavens you haven't gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it's in the Frick
which thank heavens you haven't gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
Vi esta foto do Guillaume Kayacan e lembrei-me do Frank O'Hara. Os inevitáveis e nada mais há a fazer.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
"Nos meus farrapos de azul"
Nos meus cadernos de escola
Na minha carteira e nas árvores
Nos areais e na neve
Escrevo o teu nome
Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel cinza
Escrevo o teu nome
Sobre as imagens douradas
Nos estandartes guerreiros
Tal como na coroa dos reis
Escrevo o teu nome
Nas selvas e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco dos dias
Nas estações enlaçadas
Escrevo o teu nome
Nos meus farrapos de azul
No pântano sol alterado
No lago luar vivente
Escrevo o teu nome
Nos campos do horizonte
Sobre umas asas de pássaro
Sobre o moinho das sombras
Escrevo o teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar e nos barcos
Na serrania demente
Escrevo o teu nome
Na clara espuma das nuvens
Nos suores da tempestade
Na chuva insípida e espessa
Escrevo o teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos de muitas cores
Sobre a verdade da física
Escrevo o teu nome
Nas veredas bem despertas
Nos caminhos descerrados
Nas praças que se extravasam
Escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Nas minhas casas unidas
Escrevo o teu nome
No fruto partido em dois
do meu espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome
No meu cão guloso e meigo
Nas suas orelhas erguidas
Na sua pata sem jeito
Escrevo o teu nome
Na soleira desta porta
Nos objectos familiares
Na língua de puro fogo
Escrevo o teu nome
Em toda a carne que tive
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Muito acima do silêncio
Escrevo o teu nome
Nos meus refúgios desfeitos
Nos meus faróis aluídos
Nas paredes do meu tédio
Escrevo o teu nome
Na ausência sem desejo
Na solidão despojada
Na escadaria da morte
Escrevo o teu nome
Sobre a saúde refeita
Sobre o perigo dissipado
Sobre a esperança esquecida
Escrevo o teu nome
E pelo poder da palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Nasci para te nomear
Liberdade
Liberdade, Paul Éluard.
Na minha carteira e nas árvores
Nos areais e na neve
Escrevo o teu nome
Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel cinza
Escrevo o teu nome
Sobre as imagens douradas
Nos estandartes guerreiros
Tal como na coroa dos reis
Escrevo o teu nome
Nas selvas e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco dos dias
Nas estações enlaçadas
Escrevo o teu nome
Nos meus farrapos de azul
No pântano sol alterado
No lago luar vivente
Escrevo o teu nome
Nos campos do horizonte
Sobre umas asas de pássaro
Sobre o moinho das sombras
Escrevo o teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar e nos barcos
Na serrania demente
Escrevo o teu nome
Na clara espuma das nuvens
Nos suores da tempestade
Na chuva insípida e espessa
Escrevo o teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos de muitas cores
Sobre a verdade da física
Escrevo o teu nome
Nas veredas bem despertas
Nos caminhos descerrados
Nas praças que se extravasam
Escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Nas minhas casas unidas
Escrevo o teu nome
No fruto partido em dois
do meu espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome
No meu cão guloso e meigo
Nas suas orelhas erguidas
Na sua pata sem jeito
Escrevo o teu nome
Na soleira desta porta
Nos objectos familiares
Na língua de puro fogo
Escrevo o teu nome
Em toda a carne que tive
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Muito acima do silêncio
Escrevo o teu nome
Nos meus refúgios desfeitos
Nos meus faróis aluídos
Nas paredes do meu tédio
Escrevo o teu nome
Na ausência sem desejo
Na solidão despojada
Na escadaria da morte
Escrevo o teu nome
Sobre a saúde refeita
Sobre o perigo dissipado
Sobre a esperança esquecida
Escrevo o teu nome
E pelo poder da palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Nasci para te nomear
Liberdade
Liberdade, Paul Éluard.
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
Apenas uma diferença de escala
"entre o cotão que tirava dos bolsos como exemplo de coisas humildes e os seixos rolados que escolhia nas praias e nos leitos secos dos ribeiros, austeramente coloria e guardava nas gavetas das cómodas lá de casa, entre os estudos das estrelas cadentes e a idade que atribuia ao granito de que se fazem as casas, entre o universo em expansão e as suas pinturas austeras, onde chegou a misturar pó de pedra e onde a geometria é antes uma metafísica, há apenas uma diferença de escala."
João Pinharanda a falar sobre Fernando Lanhas, o arquitecto que se apaixonou pela astronomia e se fez pintor.
João Pinharanda a falar sobre Fernando Lanhas, o arquitecto que se apaixonou pela astronomia e se fez pintor.
terça-feira, fevereiro 14, 2012
Não sei onde
Há apenas um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Manuel António Pina, Como se Desenha uma Casa (Assírio & Alvim, 2011).
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
Discovery
I believe in the great discovery.
I believe in the man who will make the discovery.
I believe in the fear of the man who will make the discovery.
I believe in his face going white,
His queasiness, his upper lip drenched in cold sweat.
I believe in the burning of his notes,
burning them into ashes,
burning them to the last scrap.
I believe in the scattering of numbers,
scattering them without regret.
I believe in the man's haste,
in the precision of his movements,
in his free will.
I believe in the shattering of tablets,
the pouring out of liquids,
the extinguishing of rays.
I am convinced this will end well,
that it will not be too late,
that it will take place without witnesses.
I'm sure no one will find out what happened,
not the wife, not the wall,
not even the bird that might squeal in its song.
I believe in the refusal to take part.
I believe in the ruined career.
I believe in the wasted years of work.
I believe in the secret taken to the grave.
These words soar for me beyond all rules
without seeking support from actual examples.
My faith is strong, blind, and without foundation.
Wislawa Szymborska
I believe in the man who will make the discovery.
I believe in the fear of the man who will make the discovery.
I believe in his face going white,
His queasiness, his upper lip drenched in cold sweat.
I believe in the burning of his notes,
burning them into ashes,
burning them to the last scrap.
I believe in the scattering of numbers,
scattering them without regret.
I believe in the man's haste,
in the precision of his movements,
in his free will.
I believe in the shattering of tablets,
the pouring out of liquids,
the extinguishing of rays.
I am convinced this will end well,
that it will not be too late,
that it will take place without witnesses.
I'm sure no one will find out what happened,
not the wife, not the wall,
not even the bird that might squeal in its song.
I believe in the refusal to take part.
I believe in the ruined career.
I believe in the wasted years of work.
I believe in the secret taken to the grave.
These words soar for me beyond all rules
without seeking support from actual examples.
My faith is strong, blind, and without foundation.
Wislawa Szymborska
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Não ficaram cinzas.
Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
José Saramago, As intermitências da morte (Caminho, 2005).
José Saramago, As intermitências da morte (Caminho, 2005).
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
I remember
“Do
You know nothing? Do you see nothing? Do you remember
Nothing?”
I remember
Those are pearls that were his eyes.
“Are you alive, or not? Is there nothing in your head?”
T. S. Eliot, The Waste Land.
You know nothing? Do you see nothing? Do you remember
Nothing?”
I remember
Those are pearls that were his eyes.
“Are you alive, or not? Is there nothing in your head?”
T. S. Eliot, The Waste Land.
segunda-feira, janeiro 30, 2012
A haunted life, the life of a ghost
I woke up as the sun was reddening; and that was the one distinct time in my life, the strangest moment of all, when I didn't know who I was - I was far away from home, haunted and tired with travel, in a cheap hotel room I'd never seen, hearing the hiss of steam outside, and the creak of the old wood of the hotel, and the footsteps upstairs, and all the sad sounds, and I looked at the cracked high ceiling and really didn't know who I was for about fifteen strange seconds. I wasn't scared; I was just somebody else, some stranger, and my whole life was a haunted life, the life of a ghost. I was halfway across America, in the dividing line between the East of my youth and the West of my future, and maybe that's why it happened right there and then, that strange red afternoon.
Jack Kerouac, On The Road (1955).
Jack Kerouac, On The Road (1955).
sexta-feira, janeiro 27, 2012
Um acto profundamente humano
O crime, disse ela ao marido, parecia-lhe um acto profundamente humano, relacionado evidentemente com as zonas mais sombrias do humano, mas humano apesar disso. A arte, para pegar noutro exemplo, estava ligada a tudo: às zonas sombrias, às zonas luminosas, às zonas intermédias. A economia não estava ligada a quase nada, a não ser ao que havia de mais maquinal, de mais previsível, de mais mecânico no ser humano. Não só não era uma ciência, como não era uma arte, ao fim ao cabo não é coisíssima nenhuma.
Michel Houllebecq, "O mapa e o território" (Objectiva, 2011).
Michel Houllebecq, "O mapa e o território" (Objectiva, 2011).
terça-feira, janeiro 24, 2012
Uma subtil forma de cuidado
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
Rui Costa, “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” (2005).
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, destas pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
Rui Costa, “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves” (2005).
domingo, janeiro 22, 2012
Desde que ainda haja coisas de que eu tenha a certeza
"Estacionamos no princípio do cais e os contentores perdem-se de vista ao longo da margem do rio. O Sr. Belchior diz que os contentores são as sobras do império, não deixa de ter piada que estejam a apodrecer no mesmo sítio onde o império começou, alguma coisa isto quer dizer, alguma coisa devemos aprender com isto, tudo na vida tem os seus porquês. (...)
Acho que nunca mais vou ser capaz de pensar e sentir uma coisa de cada vez. Com o tempo devo habituar-me e deixar de me incomodar com isso. Não posso evitar que umas coisas tragam outras ou façam perder outras. Não deve ter mal. E também não deve fazer mal. Como não faz mal eu não saber o que aconteceu ao pai na prisão, aos demónios da mãe, à Silvana ou ao tio Zé. Nada disso tem mal desde que ainda haja coisas de que eu tenha a certeza.
Um avião risca o céu a direito. Silencioso. Como um giz preguiçoso nas mãos invisíveis de deus. Noutro tempo ter-lhe-ia respondido daqui de baixo. Talvez ainda responda. Noutro tempo ter-lhe-ia escrito, talvez ainda escreva, em letras bem grandes a todo o comprimento do terraço para que não possa deixar de ver-me, eu estive aqui.
Eu estive aqui."
Dulce Maria Cardoso, O Retorno (Tinta da China, 2011).
quinta-feira, janeiro 12, 2012
Sistema de sinais
Tenho visto muitos relatórios que começam com algo como:
Doente, sexo femenino, 22 anos...
E não sei se aquele doente, mas doente assim, inaugural, seguido de vírgula, é uma pausa para respirar ou uma confirmação do que suspeitávamos: sim, está doente, sim neste momento isso domina a sua identidade. De facto, não encontro na maioria dos casos grandes motivos para suspeitar da existência de um identidade, muito menos uma personalidade. Este doente, mas doente assim, inaugural, seguido de vírgula, na forma de confirmação do óbvio, serve talvez um único propósito: relembrar a fragilidade de todas as coisas que juntas se chamam personalidade e assim, doente, não se nomeiam.
Gosta de cafés pelo fim de dia no verão, sexo masculino, 26 anos...
Gosta de cafés pelo fim de dia no verão, sexo masculino, 26 anos...
sábado, janeiro 07, 2012
Yeats 1916
I
I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.
W. B. Yeats
I have met them at close of day
Coming with vivid faces
From counter or desk among grey
Eighteenth-century houses.
I have passed with a nod of the head
Or polite meaningless words,
Or have lingered awhile and said
Polite meaningless words,
And thought before I had done
Of a mocking tale or a gibe
To please a companion
Around the fire at the club,
Being certain that they and I
But lived where motley is worn:
All changed, changed utterly:
A terrible beauty is born.
W. B. Yeats
quinta-feira, dezembro 29, 2011
There was a Child went Forth
There was a child went forth every day;
And the first object he look’d upon, that object he became;
And that object became part of him for the day, or a certain part of the day, or for many years, or stretching cycles of years.
The early lilacs became part of this child,
And grass, and white and red morning-glories, and white and red clover, and the song of the phoebe-bird,
And the Third-month lambs, and the sow’s pink-faint litter, and the mare’s foal, and the cow’s calf,
And the noisy brood of the barn-yard, or by the mire of the pond-side,
And the fish suspending themselves so curiously below there—and the beautiful curious liquid,
And the water-plants with their graceful flat heads—all became part of him.
The field-sprouts of Fourth-month and Fifth-month became part of him;
Winter-grain sprouts, and those of the light-yellow corn, and the esculent roots of the garden,
And the apple-trees cover’d with blossoms, and the fruit afterward, and wood-berries, and the commonest weeds by the road;
And the old drunkard staggering home from the out-house of the tavern, whence he had lately risen,
And the school-mistress that pass’d on her way to the school,
And the friendly boys that pass’d—and the quarrelsome boys,
And the tidy and fresh-cheek’d girls—and the barefoot negro boy and girl,
And all the changes of city and country, wherever he went.
His own parents,
He that had father’d him, and she that had conceiv’d him in her womb, and birth’d him,
They gave this child more of themselves than that;
They gave him afterward every day—they became part of him.
The mother at home, quietly placing the dishes on the supper-table;
The mother with mild words—clean her cap and gown, a wholesome odor falling off her person and clothes as she walks by;
The father, strong, self-sufficient, manly, mean, anger’d, unjust;
The blow, the quick loud word, the tight bargain, the crafty lure,
The family usages, the language, the company, the furniture—the yearning and swelling heart,
Affection that will not be gainsay’d—the sense of what is real—the thought if, after all, it should prove unreal,
The doubts of day-time and the doubts of night-time—the curious whether and how,
Whether that which appears so is so, or is it all flashes and specks?
Men and women crowding fast in the streets—if they are not flashes and specks, what are they?
The streets themselves, and the façades of houses, and goods in the windows,
Vehicles, teams, the heavy-plank’d wharves—the huge crossing at the ferries,
The village on the highland, seen from afar at sunset—the river between,
Shadows, aureola and mist, the light falling on roofs and gables of white or brown, three miles off,
The schooner near by, sleepily dropping down the tide—the little boat slack-tow’d astern,
The hurrying tumbling waves, quick-broken crests, slapping,
The strata of color’d clouds, the long bar of maroon-tint, away solitary by itself—the spread of purity it lies motionless in,
The horizon’s edge, the flying sea-crow, the fragrance of salt marsh and shore mud;
These became part of that child who went forth every day, and who now goes, and will always go forth every day.
Walt Whitman, Leaves of Grass.
And the first object he look’d upon, that object he became;
And that object became part of him for the day, or a certain part of the day, or for many years, or stretching cycles of years.
The early lilacs became part of this child,
And grass, and white and red morning-glories, and white and red clover, and the song of the phoebe-bird,
And the Third-month lambs, and the sow’s pink-faint litter, and the mare’s foal, and the cow’s calf,
And the noisy brood of the barn-yard, or by the mire of the pond-side,
And the fish suspending themselves so curiously below there—and the beautiful curious liquid,
And the water-plants with their graceful flat heads—all became part of him.
The field-sprouts of Fourth-month and Fifth-month became part of him;
Winter-grain sprouts, and those of the light-yellow corn, and the esculent roots of the garden,
And the apple-trees cover’d with blossoms, and the fruit afterward, and wood-berries, and the commonest weeds by the road;
And the old drunkard staggering home from the out-house of the tavern, whence he had lately risen,
And the school-mistress that pass’d on her way to the school,
And the friendly boys that pass’d—and the quarrelsome boys,
And the tidy and fresh-cheek’d girls—and the barefoot negro boy and girl,
And all the changes of city and country, wherever he went.
His own parents,
He that had father’d him, and she that had conceiv’d him in her womb, and birth’d him,
They gave this child more of themselves than that;
They gave him afterward every day—they became part of him.
The mother at home, quietly placing the dishes on the supper-table;
The mother with mild words—clean her cap and gown, a wholesome odor falling off her person and clothes as she walks by;
The father, strong, self-sufficient, manly, mean, anger’d, unjust;
The blow, the quick loud word, the tight bargain, the crafty lure,
The family usages, the language, the company, the furniture—the yearning and swelling heart,
Affection that will not be gainsay’d—the sense of what is real—the thought if, after all, it should prove unreal,
The doubts of day-time and the doubts of night-time—the curious whether and how,
Whether that which appears so is so, or is it all flashes and specks?
Men and women crowding fast in the streets—if they are not flashes and specks, what are they?
The streets themselves, and the façades of houses, and goods in the windows,
Vehicles, teams, the heavy-plank’d wharves—the huge crossing at the ferries,
The village on the highland, seen from afar at sunset—the river between,
Shadows, aureola and mist, the light falling on roofs and gables of white or brown, three miles off,
The schooner near by, sleepily dropping down the tide—the little boat slack-tow’d astern,
The hurrying tumbling waves, quick-broken crests, slapping,
The strata of color’d clouds, the long bar of maroon-tint, away solitary by itself—the spread of purity it lies motionless in,
The horizon’s edge, the flying sea-crow, the fragrance of salt marsh and shore mud;
These became part of that child who went forth every day, and who now goes, and will always go forth every day.
Walt Whitman, Leaves of Grass.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
O papel da pop
Um homem está a matar a mulher e o que acentuas não é a morte mas a faca que ele usa; ou dizes que a ataca violentamente. Esses detalhes tornam a língua viva. Não é o português de escola, é o português de ir às compras. Isso é o papel da pop: registar a efemeridade da língua, a sua importância num determinado momento, antes de ser substituída por uma nova cultura pop que é representativa do que é natural e espontâneo nesse tempo e nesse espaço.
B Fachada. ípsilon/Público, 23/Dez/2011.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
Ordena e corta o caos
O que faz uma linguagem? Kant mostra-o perfeitamente. As sensações vivem num caos e a linguagem ordena-as; o que faz uma síntaxe? Ordena e corta o caos e com isso vai permitir uma expressividade maior da sensação. Uma expressividade outra, dividindo a sensação e a expressão da sensação numa multiplicidade. É como a heteronímia de Pessoa, afinal. Isso significa que nós nos aproximamos da ideia de uma gramática intervalar: o que interessa não são os quadrados nem os círculos, que não são formas, o que interessa mesmo é o que, no mundo do não-objecto que é o mundo ontológico do branco abissal, se desenha como distância espacial intervalar. Chegamos à ideia de uma gramática intervalar, uma sintaxe intervalar e, portanto, uma linguagem que é, em si mesma, intervalar.
José Gil, A Arte como Linguagem (Relógio D'Água, 2010).
quinta-feira, dezembro 15, 2011
sábado, dezembro 10, 2011
sexta-feira, dezembro 09, 2011
Never Let Me Go
I don't know if the fantasy go beyond that, I can't let it. I remind myself I was lucky to have had any time with him at all. What I'm not sure about, is if our lives have been so different from the lives of the people we save. We all complete. Maybe none of us really understand what we've lived through, or feel we've had enough time.
segunda-feira, novembro 21, 2011
A minha única viúva
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Ruy Belo
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Ruy Belo
terça-feira, outubro 25, 2011
O fascínio pelo sublime
Essa comoção não esconde um enorme fascínio, que precisa de ser disfarçado com pudicas exclamações de horror. E esse fascínio - que é o fascínio pelo sublime - tem por base o kitsch espectacular do qual ficamos reféns. Não são as fotografias e os registos em vídeo que são difundidos, editados, sublinhados, musicados, legendados, repetidos, de modo a exercer uma ditadura emocional. O músico alemão Karlheinz Stockhausen, logo a seguir ao colapso do World Trade Center, disse que se tratava da maior obra de arte total. Foram declarações muito inconvenientes, que lhe valeram o cancelamento de muitos concertos. Mas estas palavras de Stockhausen era afinal o pronúncio de uma estetização irresponsável que viria a seguir, ao nível das revistas de moda. O resultado é o que se vê. Se Flaubert voltasse para rescrever o seu "Dictionnaire des idées reçues", diria na entrada sobre o 11 de setembro: "Deste dia, dizer sempre 'o dia em que...'"
António Guerreiro, Ao Pé da Letra (Atual, 17/09/2011).
domingo, outubro 23, 2011
ou com madeixas
e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que já não te cruzaste comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem não me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida
- Espera outra pessoa, vou-me embora
António Lobo Antunes, O encontro
- Espera outra pessoa, vou-me embora
António Lobo Antunes, O encontro
sexta-feira, outubro 21, 2011
com seus excessos, sua roupa e zelo.
Cada palavra
contém seu sentido dentro
com seus excessos
sua roupa e zelo.
Exemplo
nua a palavra sono
para ser em si
seja lida gato
com a noite toda
de que é seu pelo.
Carlos Nóbrega, Breviário.
contém seu sentido dentro
com seus excessos
sua roupa e zelo.
Exemplo
nua a palavra sono
para ser em si
seja lida gato
com a noite toda
de que é seu pelo.
Carlos Nóbrega, Breviário.
terça-feira, outubro 18, 2011
Nada mais
E se algum dia alguém te disser que de nada se arrepende na vida, estás perante uma de duas coisas: uma mentira ou uma tragédia. Erra, levanta-te e da próxima vez erra de uma forma mais elegante.
sábado, outubro 15, 2011
Madrigal
Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.
Tomas Tranströmer, traduzido por Luís Costa.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.
Tomas Tranströmer, traduzido por Luís Costa.
Julgando cabelos e dedos magros compridos
Lisboa a largar-se ao céu em braços e cabelos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.
Joao Silveira, Dever/Haver.
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.
Joao Silveira, Dever/Haver.
domingo, outubro 09, 2011
Porventura abusivamente, a vida real.
Desde criança, tive a tendência para crear um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como d'aquilo a que chamamos, por ventura abusivamente, a vida real.
Fernando Pessoa, Escritos sobre Génio e Loucura, em carta a Casais Monteiro.
Fernando Pessoa, Escritos sobre Génio e Loucura, em carta a Casais Monteiro.
domingo, setembro 25, 2011
Things here and things still to come
domingo, setembro 18, 2011
With an effort to appear at ease
She talked in this way while she undressed, with an effort to appear at ease; then she sat at the dressing table, ran a comb through her hair, and with her bare back towards me, looking herself in the glass, said: 'Shall I put my face to bed?'
It was a familiar phrase, one that I did not like; she meant, should she remove her make-up, cover herself with grease and put her hair in a net.
'No,' I said, 'not at once.'
Then she knew what was wanted. She had neat, hygienic ways for that too, but there were both relief and triumph in her smile of welcome; later we parted and lay in our twin beds a yard or two distant, smoking. I looked at my watch; it was four o'clock, but neither of us was ready for sleep, for in that city there is neurosis in the air which the inhabitants mistake for energy.
Evelyn Waugh, Brideshead Revisited.
It was a familiar phrase, one that I did not like; she meant, should she remove her make-up, cover herself with grease and put her hair in a net.
'No,' I said, 'not at once.'
Then she knew what was wanted. She had neat, hygienic ways for that too, but there were both relief and triumph in her smile of welcome; later we parted and lay in our twin beds a yard or two distant, smoking. I looked at my watch; it was four o'clock, but neither of us was ready for sleep, for in that city there is neurosis in the air which the inhabitants mistake for energy.
Evelyn Waugh, Brideshead Revisited.
sábado, setembro 10, 2011
Essencialmente incomunicável
Como motivo, a vergonha tem a vantagem adicional de providenciar um factor de distorção temporária, e assim prescindir de leituras que façam de Lear estúpido, inflexível ou extremista - uma vez que a vergonha é ela própria a mais estúpida, inflexível e extremista das emoções. É também arbitrária; e essencialmente incomunicável. Ao contrário da culpa ou da ira, a vergonha precisa de público, mas é precisamente a existência de público que a torna vergonha. A culpa ou a ira desejam absolvição ou retribuição; a vergonha apenas quer não ser notada. [...] Cordélia não se limita a expor a mesquinha artificialidade da cerimónia: expõe também a vergonha secreta de Lear - a vergonha que o levou a reconhecer a necessidade do plano, a vergonha de o amor das outras filhas não ser genuíno, a vergonha de precisar desse amor, a vergonha de ter sido visto a precisar desse amor.
Meu querido Rogério Casanova, tudo isto se explica assim: Who gives a fuck about an Oxford comma? I've seen those English dramas too, they're cruel.
quarta-feira, setembro 07, 2011
Se os poemas fossem pacotes de açúcar
Blond hair,
brown eyes,
you think you know me,
but I'm in disguise.
brown eyes,
you think you know me,
but I'm in disguise.
terça-feira, agosto 30, 2011
the same impression
If the moon smiled, she would resemble you.
You leave the same impression
Of something beautiful, but annihilating.
Sylvia Plath
You leave the same impression
Of something beautiful, but annihilating.
Sylvia Plath
sábado, agosto 27, 2011
Há uma diferença
Os verdadeiramente interessantes não são os que falam em código, mas os que permanecem misteriosos com a linguagem do comum.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Hécuba
A viúva bebe do cipreste
e é na orla da espuma,
na maré negra celeste
a estrela que se arruma
Fosco abat-jour de enfados,
falhas de luz desafinada,
um relógio de estragados
ponteiros em debandada.
Um saco de mercearia
nervosa de asa sem par:
um só prato para o jantar,
Água de Agosto cortada,
cimo de escada ofegante
e um livro fora da estante
Rui Lage
e é na orla da espuma,
na maré negra celeste
a estrela que se arruma
Fosco abat-jour de enfados,
falhas de luz desafinada,
um relógio de estragados
ponteiros em debandada.
Um saco de mercearia
nervosa de asa sem par:
um só prato para o jantar,
Água de Agosto cortada,
cimo de escada ofegante
e um livro fora da estante
Rui Lage
sábado, agosto 20, 2011
quarta-feira, agosto 10, 2011
Tudo fugidio, curto demais.
Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundido o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos.
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção.
Terminei agora o "La Coca" do J. Rentes Carvalho. Mas está tudo bem, há sempre mais livros.
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção.
Terminei agora o "La Coca" do J. Rentes Carvalho. Mas está tudo bem, há sempre mais livros.
terça-feira, agosto 09, 2011
Simplesmente, evitam sonhar.
Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai -
sou o novo modelo para o fracasso.
Golgona Anghel.
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai -
sou o novo modelo para o fracasso.
Golgona Anghel.
domingo, agosto 07, 2011
terça-feira, agosto 02, 2011
domingo, julho 31, 2011
E agora
Os meus critérios de arrumação ficam muito aquém dos teus,
como toda a tua vida, e agora tu morreste.
Quem me vai ler poesia, quem me vai escrever poesia, quem
me vai oferecer poesia, quem me vai arrumar a poesia?
Inês da Fonseca Santos
como toda a tua vida, e agora tu morreste.
Quem me vai ler poesia, quem me vai escrever poesia, quem
me vai oferecer poesia, quem me vai arrumar a poesia?
Inês da Fonseca Santos
segunda-feira, julho 25, 2011
Na busca inconsciente
Escrevi pelo gosto de contar. Certamente o fiz também para pôr alguma ordem num caos emotivo. Mas enganei-me ao crer que seria possível esconjurar a memória. Na verdade, em vez de sepultar as recordações só consegui fortalecê-las, agravando o meu desassossego. E quando comecei a alinhar as palavras de novo temi errar, por não saber se elas traduziam o meu pensamento, ou se as usava na busca inconsciente de uma justificação.
J. Rentes de Carvalho, La Coca.
J. Rentes de Carvalho, La Coca.
terça-feira, julho 19, 2011
segunda-feira, julho 18, 2011
acusadoramente por si mismos y el resto
Ambos acordaban que el regreso de la sensibilidad pura era paralelo a la herejía por la obsesión estética. Las cosas verdaderamente tristes habían llegado a un punto de exacerbación tal que la historia del patito feo era la versión minimalista (el mito fundacional) que organizaba la tragedia de los muchos millones que tenían ojos, y se encontraban por tanto "observados y revelados como feos acusadoramente por si mismos y el resto".
Pola Oloixarac.
sábado, julho 16, 2011
O que em mim vê não sabe o que há-de pensar
Apesar de trivial o momento é um misto
de tristeza e beleza, eu regresso a casa
para ir buscar uma cadeira. Sentar-me-ei
debaixo de uma árvore. Antes, porém,
fico a ver-me fechar as janelas
uma a uma, o que em mim é visto
pensa que ainda não é uma despedida.
O que em mim vê não sabe o que há-de
pensar. É uma criatura sem queda para
a troca de impressões, a palavra coragem
ainda continua a meter-lhe medo e encontra
beleza no gesto de um homem visto
de costas a fechar janelas e portas.
Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são.
de tristeza e beleza, eu regresso a casa
para ir buscar uma cadeira. Sentar-me-ei
debaixo de uma árvore. Antes, porém,
fico a ver-me fechar as janelas
uma a uma, o que em mim é visto
pensa que ainda não é uma despedida.
O que em mim vê não sabe o que há-de
pensar. É uma criatura sem queda para
a troca de impressões, a palavra coragem
ainda continua a meter-lhe medo e encontra
beleza no gesto de um homem visto
de costas a fechar janelas e portas.
Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são.
quinta-feira, julho 14, 2011
Somewhere i have never travelled
somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands
E.E. Cummings
domingo, julho 10, 2011
In this world of silence, no truth exists

Tracings, 2009.
The only knowledge, wit or wisdom I have for now is that my paintings come from silence and a world of abandonment. In another world there is this wrestling and restless engagement with things such as aesthetics and truth in which I can sometimes aggressively articulate my experiences and carve them in stone as though unbreakable and, at the next turn, smash these tablets of truth with little regard for what, yesterday, was the law of belief. In this world of silence, no truth exists; there is the abandonment of power that truth manifestly becomes in that other world of dogma, ideology and aesthetic certainty. The silence becomes the painting, the painting comes from silence. It is the moment when painting is no longer an act of doing or making but of receiving. There is no ego shape here, no facilitative reply to aesthetic notions, whether historical or contemporary, there is only that desperate faith of the abandoned... and there is the discovery and rediscovery of 'Art' which is exhilarating.
Patrick Graham.
sábado, julho 09, 2011
quinta-feira, junho 30, 2011
Enigmatic, unfinished, ambitious.
Although much of his assigned work was in color, he was never without a camera loaded with black and white film and a small box of extra rolls, which he used to capture what intrigued and fascinated him always: life in progress, people in their environments, enigmatic, unfinished, ambitious. His devotion to photography was lifelong and intense; he saw pictures everywhere. Taking these personal pictures kept his own course steady even as he worked, with equal devotion, on widely varying assignments which often bred new passions and fascinations, as evidenced in his involvement with the intricate beauties of technology. Some of these pictures here come from such assignments. He was there, too.
“Where I was”, Ruth Hartmann a falar de Erich Hartmann.
Podemos ficar horas a falar sobre os deslumbrados.
“Where I was”, Ruth Hartmann a falar de Erich Hartmann.
Podemos ficar horas a falar sobre os deslumbrados.
10 Mile Stereo
Originalmente de "Teen Dream" (Sub Pop, 2010). Beach House.
Tear a moment from the days that carry us on forever
It can't be gone, we're still right here
It took so long, can't say we felt it all
Limbs parallel, we stood so long we fell
Love's like a pantheon, it carries on forever
sexta-feira, junho 03, 2011
quinta-feira, junho 02, 2011
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