domingo, junho 22, 2014

Um método infalível para se decretar a morte

As ruínas, com o acúmulo do tempo de abandono, deixam de ser recuperáveis e passam a ser "não-lugares sem memórias". Para muitos, tais não-lugares passam a não ter sentido e a ser desnecessários, o que legitima o acto destruidor como condenação inevitável. (...) Tornaram-se massa disforme, obsoleta, inóspita, por vezes até agressiva da paisagem envolvente: isto é, retiraram-lhe as valências que lhe justificavam o ser, antes de razões-outras conduzirem ao abandono e à inevitável transformação. É um método infalível para se decretar a morte.

Vítor Serrão. Portugal em ruínas. Uma história cripto-artística do património construído, 2014.

Sobre duas viagens de comboio, um apartamento pré-fabricado mas com o encanto daquele pé direito, a inscrição, as ruínas, a antropologia da modernidade, uma aula, morangos deixados cortados num frigorífico, um passeio ao fim do dia, um livro comprado no Pingo Doce (sem ser aberto) e uma conversa num arraial, ainda um regresso a casa por um caminho que eu não sabia que existia. Não é complexo: é a vida e está tudo bem.

sábado, junho 21, 2014

Não se pode medir, calcular, torná-la obedientemente exacta.

Há quem persiga o poder, o dinheiro, a fama. Eu persigo a beleza. Não é uma escolha. É uma condenação. Sem beleza faleço. É um trabalho difícil, muitas vezes doloroso, cheio de revezes. Já passei dias e dias com as mãos na garganta apavorado que ela não volte a visitar-me. É difícil dizer o que é aquela poderosa presente ausência que nos oprime e agarra. Nunca está onde está, mas sempre um pouco mais longe, noutro sítio. Não são cores, imagens, sons, nem sequer a suave pele de uma mulher que me encantam. É o que está para além disso e que isso chama. A beleza corre o permanente perigo de a qualquer momento se desfazer em nada. É, na verdade, por completo insustentável. Não se pode medir, calcular, torná-la obedientemente exacta. É impossível provar que existe. Daí a urgência, o coração a bater na boca. A perseguição da beleza é uma corrida de obstáculos sem meta de chegada. Basta o som de uma voz para rasgar futuros. Basta uma fotografia de uma mala fechada sobre  uma cama para abrir horizontes. Todos os cuidados são insuficientes. É um trabalho longo preenchido de mistérios. Se se procura controlar, escapa. Se se procura guardar, esvai-se entre os dedos. Tem de ser roubada com toda a rapidez e mantida no movimento que é só dela. Se se tenta parar, fixar, já não vale a pena. O dinheiro tem certamente as suas vantagens. Uma das poucas coisas que serve para várias. E a beleza não serve de nada. Atrapalha. Provoca desastres nas famílias, intoxica-nos até ao desmaio, não poupa nada. Devia ser proibida. É um escândalo no meio do mundo. É a causa do espantoso medo que é perdê-la. Não escolhi ser quem sou, este vício de que sou escravo. O que mais importa ninguém escolhe. Já tentei ser tantos para escapar de mim, para me desviar desta vida que me deram. E depois vem a beleza. Surpreendente ao virar de uma esquina. Um desejo marcado no ponto de encontro do aeroporto onde ficaremos para sempre abraçados. A tomar duche à minha frente. A irromper do nada. A primeira coisa que um qualquer fanatismo sabe que tem a fazer é demolir com a beleza. Com todo o direito, de todas as maneiras. A beleza semeia a desordem nas almas e nos corpos que anima. A beleza alimenta-se de uma liberdade particularmente virulenta. É impertinente. Não conhece regras. Vive da vida e de mais nada.

Pedro Paixão, O mundo é tudo o que acontece.

domingo, maio 11, 2014

The destructive sublime

The contradiction between the aesthetic and the moral seemed to reach a crisis toward the end of World War II, when photographers entered the concentration camps and saw for the first time the reality of the horror that had until then not been widely visible, though certainly rumored. One British photographer, George Rodger, solved the dilemma by refusing to contaminate a sense of outrage with any aesthetic dimension. Rodger, who would become in 1947 one of the cofounders of Magnum, found himself at one point in the act of photographing a pile of corpses, "subconsciously arranging groups and bodies on the ground into artistic compositions in the viewfinder." (In fact, Rodger was not the first photographer to arrange corpses for the camera—Alexander Gardner had staged some of his most famous images as well in photographing the aftermath of Gettysburg, but it took scholars more than a hundred years to figure that out.) Rodger's realization that he was treating "this pitiful human flotsam as if it were some gigantic still-life" led to a paralyzing self-consciousness: aware of the grotesque contradiction between aesthetic requirements and his sense of moral outrage, he stopped taking pictures.

Miles Orvell. After 9/11: Photography, the Destructive Sublime, and the Postmodern Archive. Michigan Quarterly Review (2006), XLV, 2.

Insaciado.

Depois de ter criado o conceito de Deus, o Criador, o homem deu por si insatisfeito. Com efeito, apesar do comprovado valor pragmático desta imagem, através da qual as artes nobres da música e da literatura, da arquitectura, da pintura e da escultura, juntamente com as artes menos nobres do homicídio, do furto e da exploração humana em geral, foram transportadas até às alturas, algo ficara ainda por concretizar: o impulso de curiosidade no homem continuava insaciado.

[...]

Assim, o significado mais profundo de uma máquina, a câmara, emergiu aqui na América, o altar supremo do novo Deus. Se isto é irónico, poderá igualmente ser significativo. Com efeito, apesar do nosso aparente bem-estar, estamos, talvez mais do que quaisquer outras pessoas, a ser esmagados pelo calcanhar do novo Deus, destruídos por ele. Não simpatizamos particularmente, como Natalie Curtis assinalou recentemente em The Freeman, com a atitude algo histérica dos Futuristas em relação à máquina. Aqui na América não estamos a lutar, como talvez seja natural fazer em Itália, para nos libertarmos dos tentáculos de uma tradição medieval e nos lançarmos nos braços neurasténicos do novo Deus. Temo-lo connosco e sobre nós como uma vingança, e acabaremos por ter de fazer qualquer coisa acerca disso. Não apenas o novo Deus mas toda a Trindade têm de ser humanizados para que não nos desumanizem a nós. Estamos talvez a começar a perceber isso.


Fotografia e o Novo Deus. Paul Strand, 1922.

sábado, abril 26, 2014

Yes, it's just a trick.




This is how it always ends. With death. But first there was life, hidden beneath the blah, blah, blah... It's all settled beneath the chitter chatter and the noise, silence and sentiment, emotion and fear. The haggard, inconstant flashes of beauty. And then the wretched squalor and miserable humanity. All buried under the cover of the embarrassment of being in the world, blah, blah, blah... Beyond there is what lies beyond. And I don't deal with what lies beyond. Therefore... let this novel begin. After all... it's just a trick. Yes, it's just a trick.

La grande bellezza. Paolo Sorrentino, 2013.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Um mundo à parte

A constatação do carácter predatório da construção em relação ao território, aventura do acaso, oferece um panorama de conjunto traçado no descontrolo ambiental e no caos urbanístico, em grande parte causado por um desenvolvimento imobiliário apressado e por falta de instrumentos de previsão. Ainda assim, este descontrolo abriu espaço para alguns aspectos positivos, essencialmente evidentes no progresso social e económico paradoxalmente subjacentes a estes desequilíbrios e à desqualificação da ocupação do meio ambiente.
Perante o cenário de catástrofe a reacção pública tende a ser fragmentadora, recusando o novo e concedendo a priori que qualquer tecido antigo e consolidado seja "belíssimo" e que qualquer projecto contemporâneo seja "horrível". A defesa e a preocupação em torno dos centros históricos, por exemplo, configuraram-se como uma espécie de hipocrisia: como se nos centros tradicionais existisse uma grande qualidade que a arquitectura contemporânea destrói, enquanto que "o resto" é considerado um mundo à parte onde se pode construir com leviandade.

André Tavares, António Madureira, João Soares e Maddalena d'Alfonso. Arquitectura em Portugal, um roteiro fotográfico. São Paulo, 2003.

O suporte mínimo dessa edificação

A Rua da Estrada é um dos elementos mais legíveis da estruturação da urbanização excessiva. Num país histórica e profundamente deficitário em infra-estruturação, que só teve auto-estradas na década de noventa, era de esperar que a dinâmica de crescimento do pós-guerra tivesse que produzir edificação algures. As estradas e o que nelas havia (electricidade e telefone, quando calhava) eram o suporte mínimo dessa edificação com acesso garantido. É isso que explica, e não os bodes expiatórios do costume: especulação, défice de planeamento (no Antigo Regime, havia só uns planos para uns bocados de cidades e pouco mais), ilegalidade (ou a-legalidade?). Compactar isto na conversa do "feísmo" torna a realidade mais opaca e indiscernível.

Álvaro Domingues. A Rua da Estrada. Dafne, 2009.