quarta-feira, junho 26, 2013

Um significado mais profundo


Para o viajante sem preconceitos, a imagem de uma rua com gente, uma certa incidência do sol, um pequeno pormenor de atitude de um desconhecido que revele uma certa maneira de estar no mundo, podem ter um significado mais profundo do que a rosácea da catedral ou a contemplação das obras-primas do museu.

Sena da Silva, 1926 - 2001.

domingo, junho 23, 2013

The deciphering of what we are

Within the spectacle of this difference the sudden flash of an unfindable identity. No longer a genesis, but the deciphering of what we are in the light of what we are no longer.

Pierre Nora

sexta-feira, junho 21, 2013

Compel you to dispel your disbelief



You don’t know what happened. You know how a piece of time and space “looks,” to a camera. But it has to be rational. It has to compel you to dispel your disbelief, because it’s a lie! It’s reduced, it’s black and white, it’s two dimensional, and it’s a lie. If there is such a thing as truth, it’s a lie.

Garry Winogrand, "Los Angeles". Circa 1980.

quinta-feira, junho 13, 2013

o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Herberto Helder, Servidões (Assírio & Alvim, 2013).

segunda-feira, junho 10, 2013

Não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal

Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal.


Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema. 

Gonçalo M. Tavares, A perna esquerda de Paris (Relógio D'Água, 2004).

domingo, junho 09, 2013

Dá-me a tua melhor faca



Linda Martini, um original de Olhos de mongol (Rastilho, 2009).

Dentro de casa

Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade de gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos 
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue


José Tolendino Mendonça

quinta-feira, abril 18, 2013

Relatório

É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
– a dúvida, a possibilidade da morte –
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros – o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato brincando na sala
com o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra “casa”; não fulge.
Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (Assírio & Alvim, 2011).

domingo, março 24, 2013

insones

Fumam à janela, o vento frio
desfaz o fumo, os dedos tremem.
Não sabem uns dos outros,
espalhados pela cidade, mas
procuram as luzes ainda acesas
noutras casas. Noite dentro,
o silêncio dos que dormem
é uma afronta, desleixo pueril
de quem consegue ignorar
as facadas do tempo, a areia
entre os dedos, o sobressalto

José Mário Silva

sábado, março 23, 2013

An Arundel Tomb

Side by side, their faces blurred,
The earl and countess lie in stone,
Their proper habits vaguely shown
As jointed armour, stiffened pleat,
And that faint hint of the absurd -
The little dogs under their feet.

Such plainness of the pre-baroque
Hardly involves the eye, until
It meets his left-hand gauntlet, still
Clasped empty in the other; and
One sees, with a sharp tender shock,
His hand withdrawn, holding her hand.

They would not think to lie so long.
Such faithfulness in effigy
Was just a detail friends would see:
A sculptor's sweet commissioned grace
Thrown off in helping to prolong
The Latin names around the base.

They would no guess how early in
Their supine stationary voyage
The air would change to soundless damage,
Turn the old tenantry away;
How soon succeeding eyes begin
To look, not read. Rigidly they

Persisted, linked, through lengths and breadths
Of time. Snow fell, undated. Light
Each summer thronged the grass. A bright
Litter of birdcalls strewed the same
Bone-littered ground. And up the paths
The endless altered people came,

Washing at their identity.
Now, helpless in the hollow of
An unarmorial age, a trough
Of smoke in slow suspended skeins
Above their scrap of history,
Only an attitude remains:

Time has transfigures them into
Untruth. The stone fidelity
They hardly meant has come to be
Their final blazon, and to prove
Our almost-instinct almost true:
What will survive of us is love.

Philip Larkin.

sexta-feira, março 22, 2013

palavras do imperador hadriano no princípio do sono

há um pouco de vento fustigando a tarde
- mas não mais que um pouco –
e o meu corpo exposto às dunas
cai como ao princípio da noite.
hoje e ontem
escorrem-me pelos olhos
enquanto estendo as mãos
e por elas inscrevo o gosto do tacto pela areia.
disseram-me que o homem
estava escrito no homem
e o tempo dele: linhas cruzadas
ou ilhas ou maior profundidade,
nunca pude ler as tuas mãos
e das linhas apenas percebi
como pelos gestos tu me afirmavas
ou negando
me reafirmavas: dunas pelo vento
e de novo partíamos.
não posso, no entanto, pedir contas
à tua ausência. no simulacro
da coragem, quantas vezes
teremos dito o que negávamos
e a tua boca
mais perto da minha
teria, apesar
a certeza de que ninguém perde ninguém
e que os negócios do estado
apenas confirmam
entre as misérias de uns
e os ousados roubos de outros
como passa sobre essa certeza
o tempo
ao correr das sociedades
e dos impérios
no princípio desta noite.

r. lino, palavras do imperador hadriano (1984).

sábado, fevereiro 16, 2013

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

terça-feira, dezembro 25, 2012

Dignity



My pictures reflect on this absurd situation, the relationship between the characters and the space around them symbolize the grotesque nature of that location. By taking out a stagelike part of the space and by the positioning the character in it we get a vision of a dystopian world where people don’t need to think independently. In this dystopia people are virtual accessories in their living spaces, they are not the ones who form their environment, but they are formed by their environment.

Mate Moro.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

White noise



White noise #16
2011, 80x100cm, c-print

Sander Meisner

domingo, dezembro 02, 2012

The Quiet World

In an effort to get people to look
into each other’s eyes more,
and also to appease the mutes,
the government has decided
to allot each person exactly one hundred  
and sixty-seven words, per day.

When the phone rings, I put it to my ear  
without saying hello. In the restaurant  
I point at chicken noodle soup.
I am adjusting well to the new way.

Late at night, I call my long distance lover,  
proudly say I only used fifty-nine today.  
I saved the rest for you.

When she doesn’t respond,
I know she’s used up all her words,  
so I slowly whisper I love you
thirty-two and a third times.
After that, we just sit on the line  
and listen to each other breathe.

Jeffrey McDaniel
in "The Forgiveness Parade" (Manic D Press, 1998)