domingo, outubro 23, 2011

ou com madeixas

e não tenho motivos para não acreditar no rapaz, três casamentos, três divórcios, experiência, a chuva abrandar e eu feito um pinto, se calhar esqueceste-te, se calhar não pensaste mais nisso, nem o teu nome sei, para ser sincero não me lembro muito bem como és, altura média, acho eu, cabelo castanho, acho eu, ou com madeixas, não seria capaz de esclarecer, quem me garante que já não te cruzaste comigo, enquanto eu somava os sete homens carecas, sem te lembrares de como sou igualmente, quem não me garante que não estavas à espera que eu sorrisse para me falares e, como não sorri, decidiste, desiludida
- Espera outra pessoa, vou-me embora


António Lobo Antunes, O encontro

sexta-feira, outubro 21, 2011

com seus excessos, sua roupa e zelo.

Cada palavra
contém seu sentido dentro
com seus excessos
sua roupa e zelo.
Exemplo
nua a palavra sono
para ser em si
seja lida gato
com a noite toda
de que é seu pelo.


Carlos Nóbrega, Breviário.

terça-feira, outubro 18, 2011

Nada mais

E se algum dia alguém te disser que de nada se arrepende na vida, estás perante uma de duas coisas: uma mentira ou uma tragédia. Erra, levanta-te e da próxima vez erra de uma forma mais elegante.

sábado, outubro 15, 2011

Madrigal

Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o  dia em que os mortos e os vivos  trocam os seus lugares. Então, a floresta  põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou  à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.


Tomas Tranströmer, traduzido por Luís Costa.

Julgando cabelos e dedos magros compridos

Lisboa a largar-se ao céu em braços e cabelos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.


Joao Silveira, Dever/Haver.

domingo, outubro 09, 2011

Porventura abusivamente, a vida real.

Desde criança, tive a tendência para crear um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como d'aquilo a que chamamos, por ventura abusivamente, a vida real.

Fernando Pessoa, Escritos sobre Génio e Loucura, em carta a Casais Monteiro.

domingo, setembro 18, 2011

With an effort to appear at ease

She talked in this way while she undressed, with an effort to appear at ease; then she sat at the dressing table, ran a comb through her hair, and with her bare back towards me, looking herself in the glass, said: 'Shall I put my face to bed?'
It was a familiar phrase, one that I did not like; she meant, should she remove her make-up, cover herself with grease and put her hair in a net.
'No,' I said, 'not at once.'
Then she knew what was wanted. She had neat, hygienic ways for that too, but there were both relief and triumph in her smile of welcome; later we parted and lay in our twin beds a yard or two distant, smoking. I looked at my watch; it was four o'clock, but neither of us was ready for sleep, for in that city there is neurosis in the air which the inhabitants mistake for energy.

Evelyn Waugh, Brideshead Revisited.

sábado, setembro 10, 2011

Essencialmente incomunicável



Como motivo, a vergonha tem a vantagem adicional de providenciar um factor de distorção temporária, e assim prescindir de leituras que façam de Lear estúpido, inflexível ou extremista - uma vez que a vergonha é ela própria a mais estúpida, inflexível e extremista das emoções. É também arbitrária; e essencialmente incomunicável. Ao contrário da culpa ou da ira, a vergonha precisa de público, mas é precisamente a existência de público que a torna vergonha. A culpa ou a ira desejam absolvição ou retribuição; a vergonha apenas quer não ser notada. [...] Cordélia não se limita a expor a mesquinha artificialidade da cerimónia: expõe também a vergonha secreta de Lear - a vergonha que o levou a reconhecer a necessidade do plano, a vergonha de o amor das outras filhas não ser genuíno, a vergonha de precisar desse amor, a vergonha de ter sido visto a precisar desse amor.

Meu querido Rogério Casanova, tudo isto se explica assim: Who gives a fuck about an Oxford comma? I've seen those English dramas too, they're cruel.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Se os poemas fossem pacotes de açúcar

Blond hair,
brown eyes,
you think you know me,
but I'm in disguise.

sábado, agosto 27, 2011

Há uma diferença

Os verdadeiramente interessantes não são os que falam em código, mas os que permanecem misteriosos com a linguagem do comum.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Hécuba

A viúva bebe do cipreste
e é na orla da espuma,
na maré negra celeste
a estrela que se arruma

Fosco abat-jour de enfados,
falhas de luz desafinada,
um relógio de estragados
ponteiros em debandada.

Um saco de mercearia
nervosa de asa sem par:
um só prato para o jantar,

Água de Agosto cortada,
cimo de escada ofegante
e um livro fora da estante


Rui Lage

quarta-feira, agosto 10, 2011

Tudo fugidio, curto demais.

Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundido o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos.
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção.


Terminei agora o "La Coca" do J. Rentes Carvalho. Mas está tudo bem, há sempre mais livros.

terça-feira, agosto 09, 2011

Simplesmente, evitam sonhar.

Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.

Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai -
sou o novo modelo para o fracasso.


Golgona Anghel.

domingo, agosto 07, 2011

toooth.

Isto faz algum sentido.

domingo, julho 31, 2011

E agora

Os meus critérios de arrumação ficam muito aquém dos teus,
como toda a tua vida, e agora tu morreste.
Quem me vai ler poesia, quem me vai escrever poesia, quem
me vai oferecer poesia, quem me vai arrumar a poesia?

Inês da Fonseca Santos

segunda-feira, julho 25, 2011

Na busca inconsciente

Escrevi pelo gosto de contar. Certamente o fiz também para pôr alguma ordem num caos emotivo. Mas enganei-me ao crer que seria possível esconjurar a memória. Na verdade, em vez de sepultar as recordações só consegui fortalecê-las, agravando o meu desassossego. E quando comecei a alinhar as palavras de novo temi errar, por não saber se elas traduziam o meu pensamento, ou se as usava na busca inconsciente de uma justificação.

J. Rentes de Carvalho, La Coca.

segunda-feira, julho 18, 2011

acusadoramente por si mismos y el resto

Ambos acordaban que el regreso de la sensibilidad pura era paralelo a la herejía por la obsesión estética. Las cosas verdaderamente tristes habían llegado a un punto de exacerbación tal que la historia del patito feo era la versión minimalista (el mito fundacional) que organizaba la tragedia de los muchos millones que tenían ojos, y se encontraban por tanto "observados y revelados como feos acusadoramente por si mismos y el resto".

Pola Oloixarac.

Matt Niebuhr


Arrepiante.

sábado, julho 16, 2011

O que em mim vê não sabe o que há-de pensar

Apesar de trivial o momento é um misto
de tristeza e beleza, eu regresso a casa
para ir buscar uma cadeira. Sentar-me-ei
debaixo de uma árvore. Antes, porém,
fico a ver-me fechar as janelas
uma a uma, o que em mim é visto
pensa que ainda não é uma despedida.
O que em mim vê não sabe o que há-de
pensar. É uma criatura sem queda para
a troca de impressões, a palavra coragem
ainda continua a meter-lhe medo e encontra
beleza no gesto de um homem visto
de costas a fechar janelas e portas.

Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são.

quinta-feira, julho 14, 2011

Somewhere i have never travelled

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

E.E. Cummings

domingo, julho 10, 2011

In this world of silence, no truth exists

Tracings, 2009.


The only knowledge, wit or wisdom I have for now is that my paintings come from silence and a world of abandonment. In another world there is this wrestling and restless engagement with things such as aesthetics and truth in which I can sometimes aggressively articulate my experiences and carve them in stone as though unbreakable and, at the next turn, smash these tablets of truth with little regard for what, yesterday, was the law of belief. In this world of silence, no truth exists; there is the abandonment of power that truth manifestly becomes in that other world of dogma, ideology and aesthetic certainty. The silence becomes the painting, the painting comes from silence. It is the moment when painting is no longer an act of doing or making but of receiving. There is no ego shape here, no facilitative reply to aesthetic notions, whether historical or contemporary, there is only that desperate faith of the abandoned... and there is the discovery and rediscovery of 'Art' which is exhilarating.

Patrick Graham.

sábado, julho 09, 2011

Bastard

A fotografia de Claudia Grass, à qual cheguei por dar capa a este álbum.

quinta-feira, junho 30, 2011

Enigmatic, unfinished, ambitious.

Although much of his assigned work was in color, he was never without a camera loaded with black and white film and a small box of extra rolls, which he used to capture what intrigued and fascinated him always: life in progress, people in their environments, enigmatic, unfinished, ambitious. His devotion to photography was lifelong and intense; he saw pictures everywhere. Taking these personal pictures kept his own course steady even as he worked, with equal devotion, on widely varying assignments which often bred new passions and fascinations, as evidenced in his involvement with the intricate beauties of technology. Some of these pictures here come from such assignments. He was there, too.

 “Where I was”, Ruth Hartmann a falar de Erich Hartmann.

Podemos ficar horas a falar sobre os deslumbrados.

10 Mile Stereo



Originalmente de "Teen Dream" (Sub Pop, 2010). Beach House.

Tear a moment from the days that carry us on forever
It can't be gone, we're still right here
It took so long, can't say we felt it all
Limbs parallel, we stood so long we fell
Love's like a pantheon, it carries on forever

sábado, maio 21, 2011

Mais perfume.

- Parvo
a cada passo e eu, humilde, a escutar-te, pensando se soubesse dizer-te o que sinto, se pudesse abrir o peito para tu veres lá dentro, e os postais ilustrados, os pombinhos, os bambis, os naperons, as rolas, a tralha toda com que te afoguei ao princípio da crónica, tu, aproveitando uma pausa, a comunicares-me
- Não esperes por mim para jantar
pondo, à pressa, mais perfume, visto que a buzina de um automóvel te chama da rua, e o Jorge é suficientemente impulsivo para nos entrar casa dentro.


António Lobo Antunes, "Os caminhos do Senhor".

Lucky you.

Getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that - well, lucky you.

Philip Roth

quarta-feira, maio 18, 2011

I have lived my life on these moments.

A few times in my life I've had moments of absolute clarity, when for a few brief seconds the silence drowns out the noise and I can feel rather than think, and things seem so sharp and the world seems so fresh. I can never make these moments last. I cling to them, but like everything, they fade. I have lived my life on these moments. They pull me back to the present, and I realize that everything is exactly the way it was meant to be.

A Single Man, Tom Ford/David Scearce/Christopher Isherwood, 2009.

Steve Messer


Untitled, originally uploaded by Steeeve Messer.

"Untitled", as seen in j skilla's new project, Modern Geometry.

via Not Content.

terça-feira, maio 17, 2011

I am mad for it to be in contact with me.

1

I celebrate myself;  
And what I assume you shall assume;  
For every atom belonging to me, as good belongs to you.  
  
I loafe and invite my Soul;  
I lean and loafe at my ease, observing a spear of summer grass.
  
Houses and rooms are full of perfumes—the shelves are crowded with perfumes;  
I breathe the fragrance myself, and know it and like it;  
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.  
  
The atmosphere is not a perfume—it has no taste of the distillation—it is odorless;  
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become undisguised and naked;  
I am mad for it to be in contact with me.  


Walt Whitman.  Leaves of Grass.

Há tantas coisas por fazer.

it may not always be so;and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not fara away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


e.e. cummings

sexta-feira, maio 13, 2011

Pequeno léxico de palavras mal entendidas (primeira parte)

"Amara-a desde a infância até ao dia em que a acompanhara ao cemitério, e ainda continuava a amá-lá em recordações. Por isso pensava que a fidelidade é a virtude mais importante, que é a fidelidade que dá unidade à nossa vida, que, sem ela, se dispersaria em mil e uma impressões fugidias."

Milan Kundera, A Insustentável Leveza Do Ser.

quarta-feira, maio 11, 2011

No Second Troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

Yeats, Responsibilities and Other Poems.

segunda-feira, maio 09, 2011

Ternura de calafrio.

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

sexta-feira, maio 06, 2011

In the morning, in the winter shade



"Casimir Pulaski Day". Sufjan Stevens, Illinois (Asthmatic Kitty, 2005).


All the glory that the Lord has made
And the complications you could do without
When I kissed you on the mouth

segunda-feira, maio 02, 2011

Unmasking lust and loss

If I hadn’t documented her death, both the description of my state of mind and my declaration of love would have been incomplete. I found consolation in unmasking lust and loss, by staging a bitter confrontation between symbols. After Yoko’s death, I didn’t want to photograph anything but life – honestly. Yet every time I pressed the button, I ended up close to death, because to photograph is to stop time.

Nobuyoshi Araki, a propósito de Winter Journey, livro que reúne a documentação fotográfica dos últimos meses da sua mulher, Yoko, que morreu em 1990.

É assim.

sábado, abril 23, 2011

Todo es un milagro.



Cake e Croquembouche. Óleo sobre tela de linho. Will Cotton e Mary Boone Gallery, 2010.


Ou, posto de outra maneira: Todo es un milagro. Es un milagro que uno no se disuelva en la bañera como un terrón de azúcar. Pablo Picasso.

domingo, abril 17, 2011

Espera

É como ajustar o colarinho da camisa enquanto se afoga: digno, mas inútil.

O teatro, mais do que simulação, é imitação de vida

"Ivanov, um homem banal como muitos outros, vê-se confrontado com o tédio da sua situação familiar e social, com o desgosto e com a angústia. Tem de gerir as suas dívidas, as suas culpas e as pressões dos que o rodeiam, até que, não percebendo o sentido da sua vida, compreende o que deve fazer… E decide: acabar. E acaba a peça."

É assim, a vida.

sexta-feira, abril 15, 2011

Os olhos

se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor o rosto que me enche de bravura

e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero          porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade

e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo          para eles não chorarem muito


João Negreiros. a verdade dói e pode estar errada.

ouve bem o que digo porque é sincero

quinta-feira, abril 14, 2011

Mayakovsky, 4

Now I am quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.

The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just grey.

It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.

Frank O'Hara. Meditations in an Emergency. 1957.

Tiago Costa, és um palhaço.

domingo, abril 10, 2011

13 Wives


As coisas que o Foreign Policy Design Group faz nem podiam existir de outra forma.

segunda-feira, abril 04, 2011

Descobri agora

A última barreira é a humilhação. Sem dignidade, as pessoas vão longe. Ainda vou chegar a adulto.

sábado, abril 02, 2011

A fotografia é uma mentira.

Escrevi sinopses para umas curtas metragens. Mentiras. Ou como me disse hoje alguém, exercícios em volta de memórias descritivas.


Assim, para que a memória não nos falhe:


"1"
Era verão

Suponho que não há grande problema em comer vegetais.

Nunca imaginei que pudessem ter grandes sentimentos e, afinal, que planos pode ter um vegetal. Afinal, é só um vegetal. Por isso, como sempre os meus vegetais, nunca me passou pela cabeça beber outra coisa que não fosse água e vou sempre deitar-me com a cozinha já arrumada.

Um dia pensei em matar-me. Era verão.

Antes disso liguei ao meu melhor amigo, Estou a pensar matar-me, uma pessoa deve despedir-se, Não sejas tontinha. Não deixar as coisas no ar. Nunca me vou deitar com a cozinha por arrumar, não ia matar-me sem lhe ligar. Vem antes comigo, tenho de voltar à terra da minha avó, vou levar o puto.

E eu fui. Conhecer uma casa que não era a minha, andar no banco de trás.

Janelas abertas. Era verão.

Catarina Lacão queria fazer um filme com uma paisagem exótica. Pensou na Algéria, não havia orçamento. Depois percebeu que nada será mais alienígena do que o mundo aos olhos de quem dele quer sair. Assim surgiu “Era verão”, um fime sobre uma rapariga que um dia pensou em matar-se, mas foi arrastada para o mundo.


"2"
Duplo ser guardado


"Faz de ti um duplo ser guardado; / E que ninguém, que veja e fite, possa / Saber mais que um jardim de quem tu és – / um jardim ostensivo e reservado, / Por trás do qual a flor nativa roça / A erva tão pobre que nem tu a vês."

A Sara pensou em fazer um filme sobre um poema de Fernando Pessoa. Entretanto começou uma tese de mestrado e pelo meio apaixonou-se. Continuou a querer fazer um filme sobre Fernando Pessoa, mas agora apaixonada.

Teria de ser uma curta: o amor exige uma certa urgência. Assim surgiu "Duplo ser guardado", uma história sobre alguém que se apaixona quando só se queria encontrar - e assim se conheceu.

Gravado entre Braga e o Porto, recorrendo apenas a SLR digitais – máquinas fotográficas que (por acaso) fazem filmes e editado com software (igualmente) amador, esta é a documentação ficcionada da relação da realizadora com o seu próprio desnorte.


"3"
Pequenos ensaios sobre ampliação


Não se observa alguém crescer. Seria como sobreviver a uma guerra sentado num camarote: uma espécie de cobardia particularmente desconfortável, uma distância sem distância, sentimento sem lágrimas.

Não. Crescer é esta dança de coração nos ombros, ao alto, para onde os outros atiram o olhar. Como querias tu ver alguém crescer? Não, crescer não se vê. Alguém pode crescer muito parado, entendes?

Sim. Para crescer é preciso sacrificar os braços, um abraço permanente, com mãos que antes de não chegarem para mais nada, não servem para mais nada.

Esse negócio de ver alguém crescer é uma vida. É crescer.

Mais uma colecção de curtas do que uma curta, “Pequenos ensaios sobre ampliação” de João Raiter é tanto a crónica dos dias dentro do dia de uma criança, como do processo de aprendizagem de um jovem e surpreendido pai. Um filme sobre aprender a crescer, portanto.



"4"
Este dia ainda agora acabou

No tempo que demora a aquecer a água, é possível correr todos os números do despertador. Será impossível de acreditar, mas há em mim (ainda) uma ânsia em não ficar a dever nada aos dias, uma obrigação moral em chegar à cama exausta e acordar com fome.

Acordas: afinal é sábado. Dia de anos da Rita. Não sabes o que vestir, que conversa fazer.

A água já está quente, tomas banho. O dia está demasiado quente, não secas o cabelo. Não há mais paciência, vais vestida de preto.

Sonhas em adormecer e percebes que este dia ainda agora acabou.

Assumido como uma espécie de projecto de final de curso, “Este dia ainda agora acabou.” é uma curta metragem de Henrique Santos em que a única actriz e personagem é a sua irmã, na altura estudante de psicologia. O desafio: filmar o fim de uma festa que nunca aconteceu.



"5"
Margem de erro


Há uma margem de erro quando quatro amigos se reúnem junto do mar.

Ele traz tudo de volta: dois casamentos, relações cruzadas, segredos, uma infância passada junto de ruínas magnificas. Aquele pode já não ser o lugar onde cresceram, mas é o lugar que lhes cheira ao mesmo, como os fins de tarde, já quase noite, quando os seus pais voltavam de mais um dia de raiva e bebedeira, para lhes provar que nada mais ali havia do que um falhanço em câmara lenta. E aquele mar sempre igual.

Aquele pode já não ser o lugar onde cresceram, mas é o lugar onde juraram que nunca mais.

E agora que a história os apanhou, tudo o que podem fazer é ignorar a voz que faz das ondas trincheira e munição: esta é a margem de erro, este é o denominador comum.

A Ana Leiria filmou o mar, este nosso mar sem fim, como uma espécie de deserto americano em renovação permanente, um lugar onde desespero e redenção co-habitam, como se a história de todos aqueles que perto dele nasceram lá ficasse gravada.



"6"
A manhã em que deixarão de existir comboios


Não é arriscado prever que um dia deixarão de existir comboios.

Uma manhã, morre essa ideia romântica de viagem longa e carruagem partilhada, porcelana e cristal e tilintar entre carris abraçados, acasalados por um monstro que galga quilómetros.

Deixarão de existir toneladas de ferro, todos os cavalos de força e aquele mundo infinito com um guião de duas linhas. Uma manhã, deixará de existir a estranha atracção de descobrir o teu acordar antes de uma estação, o fim de linha. Porque nessa manhã deixarão de existir comboios.

Cronómetro de uma relação em civilizado desmonoramento, “A manhã em que deixarão de existir comboios”, terceira curta de Mafalda Leitão, constrói-se em flashbacks de um tempo em que a viagem parecia não ter fim, numa acumulação de momentos plenos até uma queda anunciada.


Para isto.

quarta-feira, março 30, 2011

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago. Provavelmente alegria, Caminho, 1985.

domingo, março 20, 2011

(desculpa)

beijo, estava guardada para ti desde sempre, guardada para ti, Ernesto, seria incapaz de me imaginar com outro homem, continuo à tua espera, sabias, que arrumes o carro, subas, me garantas
- A minha menina
enquanto verificas se trazes a caixinha dos comprimidos no bolso, pode parecer-te parvo mas adorava acariciar a caixinha, não te rias de mim, ou antes não levantes na minha direcção o teu sorriso pobre e a tua desculpa
- A ferrugem
mesmo que fosses um parafuso todo escuro adorava-te, guardada para ti desde sempre, a comer qualquer coisa sozinha, a folhear uma revista, a fechar a televisão, a deitar-me, guardada para ti, Ernesto, podes ter a certeza, desde o princípio do mundo.


António Lobo Antunes.

quinta-feira, março 17, 2011

Fluorescent lights

If one looks closely, it becomes apparent that there is no way out of the bar area, as the three walls of the counter form a triangle that traps the attendant. It is also notable that the diner has no visible door leading to the outside, which illustrates the idea of confinement and entrapment. Hopper denied that he had intended to communicate this in Nighthawks, but he admitted that "unconsciously, probably, I was painting the loneliness of a large city."

Hoje, terça-feira

Paguei um café a um taxista, era preciso destrocar dinheiro. Soube que faz 56 anos e teve um tio médico, que morreu há umas semanas. Disse-me que eu era novo de mais, perguntou-me se estudava ali. "Você parece mais novo". A ex-mulher teve uma meningite, desde então ficou muito impressionado. "Impressionado com um café para destrocar dinheiro?". Agradeceu, sorriu. "Devia ser eu a oferecer, faço anos".

quarta-feira, março 16, 2011

Tenho de começar a escrever

There are only three things to be done with a woman. You can love her, suffer for her, or turn her into literature.

Lawrence Durrell via YMFY.

terça-feira, março 15, 2011

"Born 1960 in Saigon, Vietnam"


Ms. Le is a superb technician, and her pictures are dramatic and gorgeous, the way combat photography often is. They are also apt documents of a war that, some people argue, is based on a fiction and, at least as originally scripted, staged for the press.

A fotografia de An-My Lê, via This Long Century.

o Outono visto pela janela

na casa onde nasci havia sons e cheiros meus
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono


"a verdade dói e pode estar errada". João Negreiros. Saída de Emergência, 2009.

agora não sei

segunda-feira, março 14, 2011

Notas de uma demolição

Como um acúfeno espesso, quase líquido, quase cego.

sexta-feira, março 11, 2011

Rather Ripped




Nota mental:
suspender o recurso aos Sonic Youth.

Pink Steam, originalmente de Rather Ripped (Geffen / Interscope, 2006).

quinta-feira, março 10, 2011

Há quem passe toda a vida a tentar

But you asked your questions, dear boy. Let's answer the simplest one, and perhaps it will answer all the rest. Why did we take your artwork? Why did we do that? You said an interesting thing earlier, Tommy. When you were discussing this with Marie-Claude. You said it was because your art would reveal what you were like. What you were like inside. That's what you said, wasn't it? Well, you weren't far wrong about that. We took away your art because we thought it would reveal your souls. Or to put it more finely, we did it to prove you had souls at all.

Never Let Me Go. Kazuo Ishiguro, 2005.

domingo, março 06, 2011

Animals

Have you forgotten what we were like then
when we were still first rate
and the day came fat with an apple in its mouth

it’s no use worrying about Time
but we did have a few tricks up our sleeves
and turned some sharp corners

the whole pasture looked like our meal
we didn’t need speedometers
we could manage cocktails out of ice and water

i wouldn’t want to be faster
or greener than now if you were with me O you
were the best of all my days



Frank O'Hara

Não vale a pena mentir.

Trapped in your hot car.



All I Need, Radiohead. In Rainbows (2007).

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Objectos em desconstrução


Há um fotógrado chamado Todd McLellan que desmonta coisas e que foi ligado a Rob Walker, no delírio de fim de dia que é YMFY.

Perhaps some of us are in more of a mood to accept beauty in the everyday, rather than aspire to the latest gleaming luxury.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Brown



Pale Blue Eyes. The Velvet Underground, MGM, 1969.

Linger on.

sábado, fevereiro 12, 2011

Uffizi

Que faz um céptico hedonista e quezilento
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.

Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.

À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.


José Miguel Silva, Erros Individuais (Relógio D'Água, 2010).

sábado, fevereiro 05, 2011

domingo, janeiro 30, 2011

A mim parece óbvio

"Perplexo por anotar que, contrariamente aos países do Norte da Europa (em particular, Inglaterra e Alemanha), os países do Sul não valorizavam (autonomamente) a perda do sentido de gosto, o Prof. Rogers (numa reunião em Munique sobre non-pecuniary losses) sentenciou, a jeito de boutade, que talvez cada país valorize o que não tem."

Maria Manuel Veloso

sexta-feira, janeiro 21, 2011

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas
um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
da memória das coisas sem idade.

O que sonhei cabe nas tuas mãos
gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em liberdade,
entre medas de trigo e alegria.

Porém a morte passeia nos quartos,
ronda as esquinas, entra nos navios,
o seu olhar é verde, o seu vestido branco,
cheiram a cinza os seus dedos frios.

Entre um céu sem cor e montes de carvão
o ardor das estações cai apodrecido;
os mastros e as casas escorrem sombra,
só o sangue brilha endurecido.

Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.

Não quero para mim tanto veneno,
tanta madrugada varrida pelo gelo,
nem olhos pintados onde morre o dia,
nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

Amanhece.
Um galo risca o silêncio
desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
um dia claro de amantes enlaçados.


Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas.

You're married.

- You're married.
- Not yet, not married. No, I'm not married.
- Look man, I'm telling you right off the bat, I'm high-maintainance, so... I'm not gonna tip-toe around your marriage, or whatever it is you've got goin' there. If you wanna be with me, you're with me.
- Okay.
- Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's lookin' for my own peace of mind; don't assign me yours.
- I remember that speech really well.
- I had you pegged, didn't I?
- You had the whole human race pegged.
- Hmm. Probably.
- I still thought you were gonna save my life... even after that.
- Ohhh... I know.
- It would be different, if we could just give it another go-round.
- Remember me. Try your best; maybe we can.

The Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, Charlie Kaufman e Michel Gondry (2004).

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Meditations in an Emergency

Am I to become profligate as if I were a blonde? Or religious
as if I were French?

Each time my heart is broken it makes me feel more adventurous
(and how the same names keep recurring on that interminable
list!), but one of these days there'll be nothing left with
which to venture forth.

Why should I share you? Why don't you get rid of someone else
for a change?

I am the least difficult of men. All I want is boundless love.

Even trees understand me! Good heavens, I lie under them, too,
don't I? I'm just like a pile of leaves.

However, I have never clogged myself with the praises of
pastoral life, nor with nostalgia for an innocent past of
perverted acts in pastures. No. One need never leave the
confines of New York to get all the greenery one wishes - I can't
even enjoy a blade of grass unless i know there's a subway
handy, or a record store or some other sign that people do not
totally regret life. It is more important to affirm the
least sincere; the clouds get enough attention as it is and
even they continue to pass. Do they know what they're missing?
Uh huh.

My eyes are vague blue, like the sky, and change all the time;
they are indiscriminate but fleeting, entirely specific and
disloyal, so that no one trusts me. I am always looking away.
Or again at something after it has given me up. It makes me
restless and that makes me unhappy, but I cannot keep them
still. If only i had grey, green, black, brown, yellow eyes; I
would stay at home and do something. It's not that I'm
curious. On the contrary, I am bored but it's my duty to be
attentive, I am needed by things as the sky must be above the
earth. And lately, so great has their anxiety become, I can
spare myself little sleep.

Now there is only one man I like to kiss when he is unshaven.
Heterosexuality! you are inexorably approaching. (How best
discourage her?)

St. Serapion, I wrap myself in the robes of your whiteness
which is like midnight in Dostoevsky. How I am to become a
legend, my dear? I've tried love, but that holds you in the
bosom of another and I'm always springing forth from it like
the lotus - the ecstasy of always bursting forth! (but one must
not be distracted by it!) or like a hyacinth, "to keep the
filth of life away," yes, even in the heart, where the filth is
pumped in and slanders and pollutes and determines. I will my
will, though I may become famous for a mysterious vacancy in
that department, that greenhouse.

Destroy yourself, if you don't know!

It is easy to be beautiful; it is difficult to appear so. I
admire you, beloved, for the trap you've set. It's like a
final chapter no one reads because the plot is over.

"Fanny Brown is run away - scampered off with a Cornet of Horse;
I do love that little Minx, & hope She may be happy, tho' She
has vexed me by this exploit a little too. - Poor silly
Cecchina! or F:B: as we used to call her. - I wish She had a
good Whipping and 10,000 pounds." - Mrs. Thrale

I've got to get out of here. I choose a piece of shawl and my
dirtiest suntans. I'll be back, I'll re-emerge, defeated, from
the valley; you don't want me to go where you go, so I go where
you don't want me to. It's only afternoon, there's a lot
ahead. There won't be any mail downstairs. Turning, I spit in
the lock and the knob turns.


Frank O'Hara

domingo, janeiro 09, 2011

Ocean Be-Atch, Spring, 2010


Ruth Swanson, que dá a libertadora ilusão de se estar a cagar para tudo (com resultados variáveis, mas de tempos a tempos há magia).

sábado, janeiro 08, 2011

Cocoa Puffs


Oil on Linen, 44” x 62”.

Lee Price
, via Coudal Partners.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Love, in spite


na verdade, não tenho nada a dizer.
mas quero dizê-lo na mesma.

definitely not in kansas anymore, "curated photography & experimental storytelling".

P.S.: A foto é da Elinor Carucci (que tem um projecto maravilhoso chamado "my children" de que já falei aqui).

terça-feira, janeiro 04, 2011

You Know You're Right



Let’s talk about someone else.

sábado, janeiro 01, 2011

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Tenderly, tastefully



Antics: amusing, frivolous, or eccentric behavior.

Era um concerto deste gajos uma vez por semana e eu andava equilibrado.

Originalmente de Antics (Matador, 2004).

sábado, dezembro 25, 2010

Há limites, deves concordar.

Ou, inquieto, um dia acordo e descubro um tipo muito magro sentado na minha cama e sou eu, vejo-me a mim próprio a olhar-me, e com um ar nada agradável, de facto sarcástico e cheio de maldade nos olhos, sentado na borda da cama abano a cabeça para mim deitado, nunca pensei ver alguém a gozar tanto com a minha figura esquelética, muito menos eu, não devemos perder a capacidade de rirmos de nós próprios, mas há limites.
Há limites, deves concordar.
Nessas noites, tardes e manhãs em que penso, ninguém vê, sou um alucinado discreto e não deixo marcas, és um alucinado discreto que não deixa marcas, nem sequer na almofada, porque aprendeste a pensar em circuito fechado, com a experiência: as lágrimas saem juntas, descem pelas calhas do nariz e reentram na boca, como naquelas fontes ornamentais que vemos nas cidades, com um motor interno.

E se eu gostasse muito de morrer, Rui Cardoso Pires. Dom Quixote, 2006.

Há que respeitar um livro com um capítulo chamado "A puta da máquina". Putas de nuvens.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Em fragmentos

Oh damn I wish that I were
dead - absolutely non existent
gone away from here - from
Everywhere but how would I
There is always bridges - the Brooklyn bridge
But I love that bridge (everything is beautiful from there
and the air is so clean) walking it seems
peaceful even with all those
cars going crazy underneath. So
It would have to be some other bridge
an ugly one and with no view - except
I like in particular all bridges - there’s some
- thing about them and besides I’ve
never seen an ugly bridge.


Marilyn Monroe

Ela também era uma mulher bonita que combinava com a poesia.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Como poderia ser imenso?

E o sonho era tudo o que ficava para lá da serra de Bornes: as cidades que nunca veriam, as paisagens viçosas das províncias férteis da beira-mar, o oceano que lhes dizíamos ser imenso.
- Imenso como o céu? - perguntavam eles.
- Não. Diferente - respondíamos nós.
Carinhosos, sorriam a perdoar-nos a tolice. Se não era como o céu, como poderia ser imenso?


Ernestina. J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2001.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Coisas que se aprendem na escola, mas só mais tarde

"Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra!"

Felizmente Há Luar!, Luís de Sttau Monteiro, 1961.

terça-feira, novembro 30, 2010

Já que estamos a falar do poeta. Compreendi,

Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.


Um bocadinho de "Se depois de eu morrer", Alberto Caeiro.

Em moldes de realidade

Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

Fernando Pessoa, Carta a Adolfo de Casais Monteiro.

Via A Douta Ignorância.

domingo, novembro 28, 2010

Amava as flores

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui ao médico.
- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
- Tem loucos na família? - perguntou o médico. - Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei historias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
A verdade é que ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.

Estilo. herberto helder, Os Passos Em Volta. Assírio & Alvim, 2009.