domingo, outubro 23, 2011
ou com madeixas
- Espera outra pessoa, vou-me embora
António Lobo Antunes, O encontro
sexta-feira, outubro 21, 2011
com seus excessos, sua roupa e zelo.
contém seu sentido dentro
com seus excessos
sua roupa e zelo.
Exemplo
nua a palavra sono
para ser em si
seja lida gato
com a noite toda
de que é seu pelo.
Carlos Nóbrega, Breviário.
terça-feira, outubro 18, 2011
Nada mais
sábado, outubro 15, 2011
Madrigal
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera , o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.
Tomas Tranströmer, traduzido por Luís Costa.
Julgando cabelos e dedos magros compridos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.
Joao Silveira, Dever/Haver.
domingo, outubro 09, 2011
Porventura abusivamente, a vida real.
Fernando Pessoa, Escritos sobre Génio e Loucura, em carta a Casais Monteiro.
domingo, setembro 25, 2011
Things here and things still to come
domingo, setembro 18, 2011
With an effort to appear at ease
It was a familiar phrase, one that I did not like; she meant, should she remove her make-up, cover herself with grease and put her hair in a net.
'No,' I said, 'not at once.'
Then she knew what was wanted. She had neat, hygienic ways for that too, but there were both relief and triumph in her smile of welcome; later we parted and lay in our twin beds a yard or two distant, smoking. I looked at my watch; it was four o'clock, but neither of us was ready for sleep, for in that city there is neurosis in the air which the inhabitants mistake for energy.
Evelyn Waugh, Brideshead Revisited.
sábado, setembro 10, 2011
Essencialmente incomunicável
Como motivo, a vergonha tem a vantagem adicional de providenciar um factor de distorção temporária, e assim prescindir de leituras que façam de Lear estúpido, inflexível ou extremista - uma vez que a vergonha é ela própria a mais estúpida, inflexível e extremista das emoções. É também arbitrária; e essencialmente incomunicável. Ao contrário da culpa ou da ira, a vergonha precisa de público, mas é precisamente a existência de público que a torna vergonha. A culpa ou a ira desejam absolvição ou retribuição; a vergonha apenas quer não ser notada. [...] Cordélia não se limita a expor a mesquinha artificialidade da cerimónia: expõe também a vergonha secreta de Lear - a vergonha que o levou a reconhecer a necessidade do plano, a vergonha de o amor das outras filhas não ser genuíno, a vergonha de precisar desse amor, a vergonha de ter sido visto a precisar desse amor.
Meu querido Rogério Casanova, tudo isto se explica assim: Who gives a fuck about an Oxford comma? I've seen those English dramas too, they're cruel.
quarta-feira, setembro 07, 2011
Se os poemas fossem pacotes de açúcar
brown eyes,
you think you know me,
but I'm in disguise.
terça-feira, agosto 30, 2011
the same impression
You leave the same impression
Of something beautiful, but annihilating.
Sylvia Plath
sábado, agosto 27, 2011
Há uma diferença
quarta-feira, agosto 24, 2011
Hécuba
e é na orla da espuma,
na maré negra celeste
a estrela que se arruma
Fosco abat-jour de enfados,
falhas de luz desafinada,
um relógio de estragados
ponteiros em debandada.
Um saco de mercearia
nervosa de asa sem par:
um só prato para o jantar,
Água de Agosto cortada,
cimo de escada ofegante
e um livro fora da estante
Rui Lage
sábado, agosto 20, 2011
quarta-feira, agosto 10, 2011
Tudo fugidio, curto demais.
O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção.
Terminei agora o "La Coca" do J. Rentes Carvalho. Mas está tudo bem, há sempre mais livros.
terça-feira, agosto 09, 2011
Simplesmente, evitam sonhar.
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
- olhai -
sou o novo modelo para o fracasso.
Golgona Anghel.
domingo, agosto 07, 2011
terça-feira, agosto 02, 2011
domingo, julho 31, 2011
E agora
como toda a tua vida, e agora tu morreste.
Quem me vai ler poesia, quem me vai escrever poesia, quem
me vai oferecer poesia, quem me vai arrumar a poesia?
Inês da Fonseca Santos
segunda-feira, julho 25, 2011
Na busca inconsciente
J. Rentes de Carvalho, La Coca.
terça-feira, julho 19, 2011
segunda-feira, julho 18, 2011
acusadoramente por si mismos y el resto
sábado, julho 16, 2011
O que em mim vê não sabe o que há-de pensar
de tristeza e beleza, eu regresso a casa
para ir buscar uma cadeira. Sentar-me-ei
debaixo de uma árvore. Antes, porém,
fico a ver-me fechar as janelas
uma a uma, o que em mim é visto
pensa que ainda não é uma despedida.
O que em mim vê não sabe o que há-de
pensar. É uma criatura sem queda para
a troca de impressões, a palavra coragem
ainda continua a meter-lhe medo e encontra
beleza no gesto de um homem visto
de costas a fechar janelas e portas.
Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são.
quinta-feira, julho 14, 2011
Somewhere i have never travelled
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands
domingo, julho 10, 2011
In this world of silence, no truth exists

sábado, julho 09, 2011
quinta-feira, junho 30, 2011
Enigmatic, unfinished, ambitious.
“Where I was”, Ruth Hartmann a falar de Erich Hartmann.
Podemos ficar horas a falar sobre os deslumbrados.
10 Mile Stereo
Originalmente de "Teen Dream" (Sub Pop, 2010). Beach House.
Tear a moment from the days that carry us on forever
It can't be gone, we're still right here
It took so long, can't say we felt it all
Limbs parallel, we stood so long we fell
Love's like a pantheon, it carries on forever
sexta-feira, junho 03, 2011
quinta-feira, junho 02, 2011
sábado, maio 21, 2011
Mais perfume.
a cada passo e eu, humilde, a escutar-te, pensando se soubesse dizer-te o que sinto, se pudesse abrir o peito para tu veres lá dentro, e os postais ilustrados, os pombinhos, os bambis, os naperons, as rolas, a tralha toda com que te afoguei ao princípio da crónica, tu, aproveitando uma pausa, a comunicares-me
- Não esperes por mim para jantar
pondo, à pressa, mais perfume, visto que a buzina de um automóvel te chama da rua, e o Jorge é suficientemente impulsivo para nos entrar casa dentro.
António Lobo Antunes, "Os caminhos do Senhor".
Lucky you.
Philip Roth
quarta-feira, maio 18, 2011
I have lived my life on these moments.
A Single Man, Tom Ford/David Scearce/Christopher Isherwood, 2009.
terça-feira, maio 17, 2011
I am mad for it to be in contact with me.
I celebrate myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs to you.
I loafe and invite my Soul;
I lean and loafe at my ease, observing a spear of summer grass.
Houses and rooms are full of perfumes—the shelves are crowded with perfumes;
I breathe the fragrance myself, and know it and like it;
The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.
The atmosphere is not a perfume—it has no taste of the distillation—it is odorless;
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become undisguised and naked;
I am mad for it to be in contact with me.
Walt Whitman. Leaves of Grass.
Há tantas coisas por fazer.
that if your lips,which i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not fara away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;
if this should be,i say if this should be
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.
e.e. cummings
sexta-feira, maio 13, 2011
Pequeno léxico de palavras mal entendidas (primeira parte)
Milan Kundera, A Insustentável Leveza Do Ser.
quarta-feira, maio 11, 2011
No Second Troy
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?
Yeats, Responsibilities and Other Poems.
segunda-feira, maio 09, 2011
Ternura de calafrio.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
sexta-feira, maio 06, 2011
In the morning, in the winter shade
And the complications you could do without
When I kissed you on the mouth
segunda-feira, maio 02, 2011
Unmasking lust and loss
Nobuyoshi Araki, a propósito de Winter Journey, livro que reúne a documentação fotográfica dos últimos meses da sua mulher, Yoko, que morreu em 1990.
É assim.
sábado, abril 23, 2011
Todo es un milagro.


Ou, posto de outra maneira: Todo es un milagro. Es un milagro que uno no se disuelva en la bañera como un terrón de azúcar. Pablo Picasso.
domingo, abril 17, 2011
O teatro, mais do que simulação, é imitação de vida
É assim, a vida.
sexta-feira, abril 15, 2011
Os olhos
e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço para me matar de felicidade
e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo para eles não chorarem muito
João Negreiros. a verdade dói e pode estar errada.
ouve bem o que digo porque é sincero
quinta-feira, abril 14, 2011
Mayakovsky, 4
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.
The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just grey.
It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.
Frank O'Hara. Meditations in an Emergency. 1957.
Tiago Costa, és um palhaço.
domingo, abril 10, 2011
segunda-feira, abril 04, 2011
Descobri agora
domingo, abril 03, 2011
E só lá
sábado, abril 02, 2011
A fotografia é uma mentira.
Suponho que não há grande problema em comer vegetais.
Nunca imaginei que pudessem ter grandes sentimentos e, afinal, que planos pode ter um vegetal. Afinal, é só um vegetal. Por isso, como sempre os meus vegetais, nunca me passou pela cabeça beber outra coisa que não fosse água e vou sempre deitar-me com a cozinha já arrumada.
Um dia pensei em matar-me. Era verão.
Antes disso liguei ao meu melhor amigo, Estou a pensar matar-me, uma pessoa deve despedir-se, Não sejas tontinha. Não deixar as coisas no ar. Nunca me vou deitar com a cozinha por arrumar, não ia matar-me sem lhe ligar. Vem antes comigo, tenho de voltar à terra da minha avó, vou levar o puto.
E eu fui. Conhecer uma casa que não era a minha, andar no banco de trás.
Janelas abertas. Era verão.
Catarina Lacão queria fazer um filme com uma paisagem exótica. Pensou na Algéria, não havia orçamento. Depois percebeu que nada será mais alienígena do que o mundo aos olhos de quem dele quer sair. Assim surgiu “Era verão”, um fime sobre uma rapariga que um dia pensou em matar-se, mas foi arrastada para o mundo.
"Faz de ti um duplo ser guardado; / E que ninguém, que veja e fite, possa / Saber mais que um jardim de quem tu és – / um jardim ostensivo e reservado, / Por trás do qual a flor nativa roça / A erva tão pobre que nem tu a vês."
A Sara pensou em fazer um filme sobre um poema de Fernando Pessoa. Entretanto começou uma tese de mestrado e pelo meio apaixonou-se. Continuou a querer fazer um filme sobre Fernando Pessoa, mas agora apaixonada.
Teria de ser uma curta: o amor exige uma certa urgência. Assim surgiu "Duplo ser guardado", uma história sobre alguém que se apaixona quando só se queria encontrar - e assim se conheceu.
Gravado entre Braga e o Porto, recorrendo apenas a SLR digitais – máquinas fotográficas que (por acaso) fazem filmes e editado com software (igualmente) amador, esta é a documentação ficcionada da relação da realizadora com o seu próprio desnorte.
Não se observa alguém crescer. Seria como sobreviver a uma guerra sentado num camarote: uma espécie de cobardia particularmente desconfortável, uma distância sem distância, sentimento sem lágrimas.
Não. Crescer é esta dança de coração nos ombros, ao alto, para onde os outros atiram o olhar. Como querias tu ver alguém crescer? Não, crescer não se vê. Alguém pode crescer muito parado, entendes?
Sim. Para crescer é preciso sacrificar os braços, um abraço permanente, com mãos que antes de não chegarem para mais nada, não servem para mais nada.
Esse negócio de ver alguém crescer é uma vida. É crescer.
Mais uma colecção de curtas do que uma curta, “Pequenos ensaios sobre ampliação” de João Raiter é tanto a crónica dos dias dentro do dia de uma criança, como do processo de aprendizagem de um jovem e surpreendido pai. Um filme sobre aprender a crescer, portanto.
No tempo que demora a aquecer a água, é possível correr todos os números do despertador. Será impossível de acreditar, mas há em mim (ainda) uma ânsia em não ficar a dever nada aos dias, uma obrigação moral em chegar à cama exausta e acordar com fome.
Acordas: afinal é sábado. Dia de anos da Rita. Não sabes o que vestir, que conversa fazer.
A água já está quente, tomas banho. O dia está demasiado quente, não secas o cabelo. Não há mais paciência, vais vestida de preto.
Sonhas em adormecer e percebes que este dia ainda agora acabou.
Assumido como uma espécie de projecto de final de curso, “Este dia ainda agora acabou.” é uma curta metragem de Henrique Santos em que a única actriz e personagem é a sua irmã, na altura estudante de psicologia. O desafio: filmar o fim de uma festa que nunca aconteceu.
Há uma margem de erro quando quatro amigos se reúnem junto do mar.
Ele traz tudo de volta: dois casamentos, relações cruzadas, segredos, uma infância passada junto de ruínas magnificas. Aquele pode já não ser o lugar onde cresceram, mas é o lugar que lhes cheira ao mesmo, como os fins de tarde, já quase noite, quando os seus pais voltavam de mais um dia de raiva e bebedeira, para lhes provar que nada mais ali havia do que um falhanço em câmara lenta. E aquele mar sempre igual.
Aquele pode já não ser o lugar onde cresceram, mas é o lugar onde juraram que nunca mais.
E agora que a história os apanhou, tudo o que podem fazer é ignorar a voz que faz das ondas trincheira e munição: esta é a margem de erro, este é o denominador comum.
A Ana Leiria filmou o mar, este nosso mar sem fim, como uma espécie de deserto americano em renovação permanente, um lugar onde desespero e redenção co-habitam, como se a história de todos aqueles que perto dele nasceram lá ficasse gravada.
Não é arriscado prever que um dia deixarão de existir comboios.
Uma manhã, morre essa ideia romântica de viagem longa e carruagem partilhada, porcelana e cristal e tilintar entre carris abraçados, acasalados por um monstro que galga quilómetros.
Deixarão de existir toneladas de ferro, todos os cavalos de força e aquele mundo infinito com um guião de duas linhas. Uma manhã, deixará de existir a estranha atracção de descobrir o teu acordar antes de uma estação, o fim de linha. Porque nessa manhã deixarão de existir comboios.
Cronómetro de uma relação em civilizado desmonoramento, “A manhã em que deixarão de existir comboios”, terceira curta de Mafalda Leitão, constrói-se em flashbacks de um tempo em que a viagem parecia não ter fim, numa acumulação de momentos plenos até uma queda anunciada.
Para isto.
quarta-feira, março 30, 2011
Na ilha por vezes habitada
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
quarta-feira, março 23, 2011
domingo, março 20, 2011
(desculpa)
- A minha menina
enquanto verificas se trazes a caixinha dos comprimidos no bolso, pode parecer-te parvo mas adorava acariciar a caixinha, não te rias de mim, ou antes não levantes na minha direcção o teu sorriso pobre e a tua desculpa
- A ferrugem
mesmo que fosses um parafuso todo escuro adorava-te, guardada para ti desde sempre, a comer qualquer coisa sozinha, a folhear uma revista, a fechar a televisão, a deitar-me, guardada para ti, Ernesto, podes ter a certeza, desde o princípio do mundo.
António Lobo Antunes.
quinta-feira, março 17, 2011
Hoje, terça-feira
quarta-feira, março 16, 2011
Tenho de começar a escrever
Lawrence Durrell via YMFY.
terça-feira, março 15, 2011
"Born 1960 in Saigon, Vietnam"

Ms. Le is a superb technician, and her pictures are dramatic and gorgeous, the way combat photography often is. They are also apt documents of a war that, some people argue, is based on a fiction and, at least as originally scripted, staged for the press.
A fotografia de An-My Lê, via This Long Century.
o Outono visto pela janela
as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória
e eu incluía-os como amigos íntimos
nesta não tem gente
ou se tem não têm cheiro
nem som porque eu não me lembro
gastei toda a memória nas pessoas antigas
e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T
onde eu estou sem visitas
fechado à medida de não deixar entrar
preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom
eu já fui bom
agora não sei
mas já fui
juro que fui
e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias
p’ra que nenhuma se perca
era pena
é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe
e quero mantê-los ligados à máquina para sempre
e a máquina sou eu
e para sempre sou eu
anda
aconchega-te no mofo do T1
finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino
cheiras à minha avó
à roupa no estendal
à canção do fim dos bonecos
ao banho que está a ficar frio
ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair
tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair
que foi no mesmo dia em que resistiu
como se estivesse ali desde o início dos tempos
e os tivesse começado para eu os acabar
acabar
acabar
acaba comigo que me falha a lembrança
e restas-me como a folha que esteve para cair
e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono
"a verdade dói e pode estar errada". João Negreiros. Saída de Emergência, 2009.
agora não sei
segunda-feira, março 14, 2011
sexta-feira, março 11, 2011
Rather Ripped
Nota mental: suspender o recurso aos Sonic Youth.
Pink Steam, originalmente de Rather Ripped (Geffen / Interscope, 2006).
quinta-feira, março 10, 2011
Há quem passe toda a vida a tentar
Never Let Me Go. Kazuo Ishiguro, 2005.
domingo, março 06, 2011
Animals
when we were still first rate
and the day came fat with an apple in its mouth
it’s no use worrying about Time
but we did have a few tricks up our sleeves
and turned some sharp corners
the whole pasture looked like our meal
we didn’t need speedometers
we could manage cocktails out of ice and water
i wouldn’t want to be faster
or greener than now if you were with me O you
were the best of all my days
Não vale a pena mentir.
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
Objectos em desconstrução

Há um fotógrado chamado Todd McLellan que desmonta coisas e que foi ligado a Rob Walker, no delírio de fim de dia que é YMFY.
Perhaps some of us are in more of a mood to accept beauty in the everyday, rather than aspire to the latest gleaming luxury.
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
sábado, fevereiro 12, 2011
Uffizi
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
José Miguel Silva, Erros Individuais (Relógio D'Água, 2010).
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
sábado, fevereiro 05, 2011
domingo, janeiro 30, 2011
A mim parece óbvio
sexta-feira, janeiro 21, 2011
Notes from a Drowning

In this state, ideally, one could absorb any number of blows to the face.
Notes from a Drowning (Pages found in a box, 2009).
Responsabilidade: Flux is a design studio.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Não é verdade
um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
da memória das coisas sem idade.
O que sonhei cabe nas tuas mãos
gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em liberdade,
entre medas de trigo e alegria.
Porém a morte passeia nos quartos,
ronda as esquinas, entra nos navios,
o seu olhar é verde, o seu vestido branco,
cheiram a cinza os seus dedos frios.
Entre um céu sem cor e montes de carvão
o ardor das estações cai apodrecido;
os mastros e as casas escorrem sombra,
só o sangue brilha endurecido.
Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.
Não quero para mim tanto veneno,
tanta madrugada varrida pelo gelo,
nem olhos pintados onde morre o dia,
nem beijos de lágrimas no meu cabelo.
Amanhece.
Um galo risca o silêncio
desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
um dia claro de amantes enlaçados.
Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas.
You're married.
- Not yet, not married. No, I'm not married.
- Look man, I'm telling you right off the bat, I'm high-maintainance, so... I'm not gonna tip-toe around your marriage, or whatever it is you've got goin' there. If you wanna be with me, you're with me.
- Okay.
- Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's lookin' for my own peace of mind; don't assign me yours.
- I remember that speech really well.
- I had you pegged, didn't I?
- You had the whole human race pegged.
- Hmm. Probably.
- I still thought you were gonna save my life... even after that.
- Ohhh... I know.
- It would be different, if we could just give it another go-round.
- Remember me. Try your best; maybe we can.
The Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, Charlie Kaufman e Michel Gondry (2004).
sexta-feira, janeiro 14, 2011
Meditations in an Emergency
as if I were French?
Each time my heart is broken it makes me feel more adventurous
(and how the same names keep recurring on that interminable
list!), but one of these days there'll be nothing left with
which to venture forth.
Why should I share you? Why don't you get rid of someone else
for a change?
I am the least difficult of men. All I want is boundless love.
Even trees understand me! Good heavens, I lie under them, too,
don't I? I'm just like a pile of leaves.
However, I have never clogged myself with the praises of
pastoral life, nor with nostalgia for an innocent past of
perverted acts in pastures. No. One need never leave the
confines of New York to get all the greenery one wishes - I can't
even enjoy a blade of grass unless i know there's a subway
handy, or a record store or some other sign that people do not
totally regret life. It is more important to affirm the
least sincere; the clouds get enough attention as it is and
even they continue to pass. Do they know what they're missing?
Uh huh.
My eyes are vague blue, like the sky, and change all the time;
they are indiscriminate but fleeting, entirely specific and
disloyal, so that no one trusts me. I am always looking away.
Or again at something after it has given me up. It makes me
restless and that makes me unhappy, but I cannot keep them
still. If only i had grey, green, black, brown, yellow eyes; I
would stay at home and do something. It's not that I'm
curious. On the contrary, I am bored but it's my duty to be
attentive, I am needed by things as the sky must be above the
earth. And lately, so great has their anxiety become, I can
spare myself little sleep.
Now there is only one man I like to kiss when he is unshaven.
Heterosexuality! you are inexorably approaching. (How best
discourage her?)
St. Serapion, I wrap myself in the robes of your whiteness
which is like midnight in Dostoevsky. How I am to become a
legend, my dear? I've tried love, but that holds you in the
bosom of another and I'm always springing forth from it like
the lotus - the ecstasy of always bursting forth! (but one must
not be distracted by it!) or like a hyacinth, "to keep the
filth of life away," yes, even in the heart, where the filth is
pumped in and slanders and pollutes and determines. I will my
will, though I may become famous for a mysterious vacancy in
that department, that greenhouse.
Destroy yourself, if you don't know!
It is easy to be beautiful; it is difficult to appear so. I
admire you, beloved, for the trap you've set. It's like a
final chapter no one reads because the plot is over.
"Fanny Brown is run away - scampered off with a Cornet of Horse;
I do love that little Minx, & hope She may be happy, tho' She
has vexed me by this exploit a little too. - Poor silly
Cecchina! or F:B: as we used to call her. - I wish She had a
good Whipping and 10,000 pounds." - Mrs. Thrale
I've got to get out of here. I choose a piece of shawl and my
dirtiest suntans. I'll be back, I'll re-emerge, defeated, from
the valley; you don't want me to go where you go, so I go where
you don't want me to. It's only afternoon, there's a lot
ahead. There won't be any mail downstairs. Turning, I spit in
the lock and the knob turns.
Frank O'Hara
domingo, janeiro 09, 2011
Ocean Be-Atch, Spring, 2010

Ruth Swanson, que dá a libertadora ilusão de se estar a cagar para tudo (com resultados variáveis, mas de tempos a tempos há magia).
sábado, janeiro 08, 2011
sexta-feira, janeiro 07, 2011
Love, in spite

na verdade, não tenho nada a dizer.
mas quero dizê-lo na mesma.
definitely not in kansas anymore, "curated photography & experimental storytelling".
P.S.: A foto é da Elinor Carucci (que tem um projecto maravilhoso chamado "my children" de que já falei aqui).
terça-feira, janeiro 04, 2011
sábado, janeiro 01, 2011
segunda-feira, dezembro 27, 2010
Tenderly, tastefully
Antics: amusing, frivolous, or eccentric behavior.
Era um concerto deste gajos uma vez por semana e eu andava equilibrado.
Originalmente de Antics (Matador, 2004).
sábado, dezembro 25, 2010
Há limites, deves concordar.
Há limites, deves concordar.
Nessas noites, tardes e manhãs em que penso, ninguém vê, sou um alucinado discreto e não deixo marcas, és um alucinado discreto que não deixa marcas, nem sequer na almofada, porque aprendeste a pensar em circuito fechado, com a experiência: as lágrimas saem juntas, descem pelas calhas do nariz e reentram na boca, como naquelas fontes ornamentais que vemos nas cidades, com um motor interno.
E se eu gostasse muito de morrer, Rui Cardoso Pires. Dom Quixote, 2006.
Há que respeitar um livro com um capítulo chamado "A puta da máquina". Putas de nuvens.
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Em fragmentos
dead - absolutely non existent
gone away from here - from
Everywhere but how would I
There is always bridges - the Brooklyn bridge
But I love that bridge (everything is beautiful from there
and the air is so clean) walking it seems
peaceful even with all those
cars going crazy underneath. So
It would have to be some other bridge
an ugly one and with no view - except
I like in particular all bridges - there’s some
- thing about them and besides I’ve
never seen an ugly bridge.
Marilyn Monroe
Ela também era uma mulher bonita que combinava com a poesia.
domingo, dezembro 19, 2010
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Como poderia ser imenso?
- Imenso como o céu? - perguntavam eles.
- Não. Diferente - respondíamos nós.
Carinhosos, sorriam a perdoar-nos a tolice. Se não era como o céu, como poderia ser imenso?
Ernestina. J. Rentes de Carvalho, Quetzal, 2001.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
Coisas que se aprendem na escola, mas só mais tarde
Felizmente Há Luar!, Luís de Sttau Monteiro, 1961.
terça-feira, novembro 30, 2010
Já que estamos a falar do poeta. Compreendi,
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um bocadinho de "Se depois de eu morrer", Alberto Caeiro.
Em moldes de realidade
Fernando Pessoa, Carta a Adolfo de Casais Monteiro.
Via A Douta Ignorância.
domingo, novembro 28, 2010
Amava as flores
Uma vez fui ao médico.
- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
- Tem loucos na família? - perguntou o médico. - Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei historias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
A verdade é que ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
Estilo. herberto helder, Os Passos Em Volta. Assírio & Alvim, 2009.
quarta-feira, novembro 24, 2010
Nighthawks
(...)
But when he’s on, he gets us to put ourselves in his dramas, to identify with the isolation of his characters, the existential distance that buzzes between any two persons. It’s a wonderfully dark trap, with the hope for human connection forever frustrated because paintings never change.
A propósito da tua pergunta sobre isto, claro. Agora entendes, muito embora eu ache que os artista nunca têm razão, apenas razões.













